Os amores de Ana Amélia – Parte II

ana_logoApós receber a negativa de Dona Lourença em se casar com Gonçalves Dias, em seguida ter as esperanças de continuar o amor proibido frustradas pelo próprio amante que se recusou a enfrentar a família tirando-lhe de sua casa e ainda pedindo para que o esquecesse, Ana Amélia parece ter decido não mais seguir o que fora traçado pela sua família do que seria o seu futuro. Esse pedido audacioso de Gonçalves Dias deve ter dado um alerta a seus pais de que estava na hora de procurar um pretendente para sua filha. Mas ela própria se adiantou e em arrumar o seu marido.

Parece que Ana Amélia escolheu a dedo esse pretendente. Mestiço de família sem tradição aristocrática, embora possuísse posses. Mas ele se enquadrava nos mesmos requisitos em que fora reprovado o poeta. Para muitos biógrafos de Gonçalves Dias, Ana Amélia casou-se com Domingos Porto por vingança aos pais e ao poeta.

Os dois teriam se conhecido após todo o episódio traumático por qual passou Ana Amélia. Em 03 de abril de 1853 apareciam como padrinhos de um batizado ocorrido na Santa Casa de Misericórdia. De uma amizade teria nascido uma oportunidade sair de casa e também um novo amor.

Domingos da Silva Porto era neto de escravos. “Filho do sol, neto da lua”, conforme João Lisboa em carta ao jornal Publicador Maranhense, referindo-se a sua descendência de certa forma pejorativa (1). Filho de um branco e de uma negra. Nasceu no Maranhão em 1813 e era seu pai Antônio Francisco da Silva Porto (2). A escritora Lucia Miguel Pereira em seu livro “A vida de Gonçalves Dias” diz que Domingos Porto era conterrâneo de Gonçalves Dias. Teria Domingos Porto nascido em Caxias? Se sim é uma coincidência mais surpreendente e irônica ainda nesta trama amorosa. É possível que seu pai já estivesse em Caxias quando ele nasceu pois aqui ele mantinha comercio de canoas onde fazia viagens até a capital pelo menos desde o início de 1820.

A família Porto não entra na vida de Gonçalves Dias apenas no caso amoroso de Ana Amélia. Quando João Manoel Gonçalves Dias, o pai do poeta morreu em 1837 vários de seus amigos se dispuseram a ajudar financeiramente o jovem a ir completar os seus estudos em Portugal. Foram eles Ricardo Leão Sabino (seu professor), João Paulo Dias Carneiro (prefeito), Antônio Manuel Fernandes Junior, Luís Paulino e o juiz Gonçalo da Silva Porto (3), irmão de Domingos Porto.

Domingos Porto mantinha relações de amizade com Gonçalves Dias. Quando surgiu o caso do boato da morte do poeta em 1862, Domingos foi um dos que lhe escreveu carta comentando o episódio e o felicitando por ainda estar vivo. É possível que os dois tenham se conhecido quando garotos em Caxias e mantido amizade desde então. Teria Ana Amélia conhecimento da amizade dos dois?

Ao contrário de seu irmão Gonçalo que fora estudar na Europa, Domingos aqui deve ter ficado para auxiliar o pai no comercio onde mostrou grande aptidão. O jovem Domingos Porto militava no partido liberal Bem Ti Vi. Quando estourou a Balaiada, seu nome aparece junto de outras figuras da sociedade caxiense ao lado de Lívio Lopes Castelo Branco (O Ruivo) em um episódio descrito por Hermenegildo da Costa Nunes quando ele fora convocado a fazer parte da Junta Provisória em 1839. O pai de Domingos Porto que tinha comercio de canoas onde faziam viagens a capital, foi um dos cidadãos que ajudaram na defesa da cidade. Seu irmão Gonçalo era em Caxias Juiz de Paz. Domingos Porto possivelmente fora convocado como cidadão para ser um dos muitos porta vozes para que a cidade se rendesse aos rebeldes balaios.

Em 1835 quando seu pai Antônio Porto mudou-se para Portugal, Domingos que era seu sócio, assumiu a frente das firmas que mantinham em Caxias e São Luís. Domingos cresceu o que herdara do pai e em pouco tempo já era um homem rico. Na década de 1840 muda a sua residência para em São Luís na rua da Estrela, onde seu pai residia. Continuava mantendo casa, comercio e influencia em Caxias. Em 1848 recebe o título de Comendador da Imperial Ordem da Rosa.

Em 1849 existiam quatro portos em Caxias que serviam para desembarque de mercadorias. Um, o Porto Grande recebeu melhorias como calçada e rampa de Domingos, o que o deixou como o porto mais importante dos quatro na cidade.

Em São Luís foi Juiz de Paz do 1º Distrito e Suplente de Sub Delegado de polícia na Freguesia da Sé, Tenente Coronel da Guarda Nacional, Membro da Direção do Banco Comercial do Maranhão, membro da Diretoria e Tesoureiro do Teatro União (hoje Teatro Arthur Azevedo). Em 1853 chegou a concorrer a vaga para Deputado Provincial, ficando na suplência. Chegou a ser um dos Vice Presidentes da Província do Maranhão (6º na linha sucessória em 1853).

Em 1850 o Governo da Província contratou a empresa Companhia Caxiense para navegação a vapor do Itapecuru até Caxias, sendo Domingos um dos proprietários junto de João Gualberto da Costa e Thomaz Gilroy, assumindo ele como Diretor da Empresa. Foi até a Inglaterra na cidade de Liverpool conferir a construção do barco que faria as viagens até Caxias.  Entrou em atividade no ano seguinte pelo barco Vapor Nacional Caxiense, fazendo viagens por Rosário, Itapecuru Mirim, Coroatá, Codó e Caxias.

ana7Anuncio do Vapor Caxiense em 1851.

Domingos também praticava a caridade. Em 1850 quando veio para ser instalado um sino na Igreja da Matriz de Caxias, Domingos Porto pagou o frete de São Luís até Caxias e alguns de seus escravos o levou do barco até a igreja. Presidente da Sociedade da Beneficência do Comercio do Maranhão fundada em 1851 que pretendia instalar um hospital para cuidar de estrangeiros e empregados do comercio para tratar de uma epidemia que assolava a capital na época. Enquanto não se tinha o hospital, os doentes foram recolhidos em uma casa de sua propriedade na rua da Estrela. Em 1854 doou as pedras de cantaria para as obras da calçada na Rua Direita, também na capital.

Domingos Porto estava no auge. Bem sucedido, rico e de boa circulação nos meios da sociedade ludovicense. Amigo íntimo do governador Eduardo Olímpio Machado. Até que conheceu e se apaixonou por Ana Amélia. Do ponto alto da carreira, Domingos conheceu a queda vertiginosa.

Um mestiço de origem humilde, assim como Gonçalves Dias, novamente ameaçando a família era demais. Mesmo Porto sendo rico podendo dar uma vida confortável a Ana Amélia, a sua origem e cor continuavam sendo uma barreira ao matrimônio.

A família Leal novamente se opôs a esse casamento. Mas firme em tê-la como esposa, Domingos acabou a tirando de casa. Ela fugiu para a Rua da Estrela. Fez o que Gonçalves Dias não teve coragem. Para se casar, Domingos teve de recorrer à justiça pois Ana Amélia já tinha maioridade. A justiça acabou dando ganho para Domingos e casaram-se no dia 08 de outubro de 1854. Conta-se que Dona Lourença de tanta tristeza pela audácia de sua filha acabou a considerando morta e no dia de seu casamento fez tocar hinos fúnebres nos sinos de São Luís.

O pai de Ana Amélia, Domingos Vale até então ausente nas questões amorosas da filha (pelo menos nas biografias de Gonçalves Dias que contam seu relacionamento com ela) aparece com mão de ferro. Resolve com papel assinado em cartório deserdar Ana Amélia. O motivo era claro: Domingos Porto era descendentes de escravos. Após o casamento ela mudou de nome passando a se chamar Ana Amélia da Silva Porto.

Os biógrafos de Gonçalves Dias que citam a vida de Ana Amélia após a negativa de casamento com o poeta, afirmam que a família Vale acabou influenciando na queda de Domingos Porto. Não se pode negar que a família tinha forte influência nos meios sociais, comerciais e políticos. O avô de Ana Amélia, o pai, o irmão Visconde, os cunhados Alexandre Teófilo de Carvalho Leal e Raimundo Teixeira Mendes e os amigos. Todos tinham poder suficiente para perseguir algum desafeto na provincial São Luís, caso de fato tenham feito.

Ainda mais se tratando de um escândalo onde uma jovem desafiou os pais se casando com um neto de escravos. A sociedade deve ter ficado condizente com Dona Lourença e seu esposo. O fato é que os negócios de Domingos Porto começaram a ruir.

No início de 1855, quando exercia o Comando Superior da Guarda Nacional da capital, foi dado um ano de licença pelo Governador Olímpio Machado. Teria a licença partido de pressão da família Vale? Sem crédito e sem dinheiro a firma de sua propriedade e sociedade que mantinha com seu pai faliu. Conforme petição enviada a Junta Comercial, Domingos alegava ter recebido de seu pai o passivo para pagamento da firma que em 1854 encerraram, e tinham um ativo muito superior. Falido, fora acusado nos jornais de fraudador junto de seu pai.

Em maio por Ato do Governo foi demitido do Comando Superior. Um dos que o acusou de fraude nos jornais de São Luís e Rio de Janeiro era um nome de peso: João Francisco Lisboa que tomou o caso para si em defesa de um querido amigo e sócio, que teve seu nome incluso na questão das fraudes injustamente. João Lisboa chegou a requerer a prisão de Domingos pela fraude.

No dia 15 de fevereiro Domingos Porto foi ao quartel do Campo de Ourique se entregar se declarando “culpado de quebra fraudulenta” (4). Mas como não havia nenhum mandato, ele acabou voltando para casa. Não se sabe se esse ato de desespero foi um verdadeiro ato de sinceridade com que tratara as coisas afim de limpar o seu nome ou excesso alcoólico após uma noite infeliz que o levaram até o quartel.

Domingos se manteve recluso durante as denúncias. Os amigos sumiram e agora quem batia a sua porta eram os cobradores. Sem trabalho, sem credito na praça, sem dinheiro, mal visto pela sociedade e com medo de ser preso, rumou para Lisboa no dia 23 de abril de 1855 com Ana Amélia. Sua residência, o sobrado da Rua da Estrela fora tomada pela Secretaria da Fazenda Pública.

A atitude da filha de abandonar a família para viver este amor acabou abatendo o velho Domingos Ferreira Vale. Desde o episódio negava-se a sair de casa ou ter convívio social devido a vergonha ocorrida. Passou a sofrer ataques apopléticos e veio a falecer no dia 16 de janeiro de 1857 sendo enterrado no dia seguinte no Cemitério dos Passos.

A situação de penúria por estava passando Ana Amélia sensibilizara Gonçalves Dias que em correspondência com seu amigo e primo da amada, desejava tornar-se rico para ajudá-la.

Recém chegada em Lisboa com o esposo era hora de tentar recomeçar uma nova vida. Mas por um acaso do destino poucos dias depois de chegar de viagem enquanto transitava por um parque público, encontra seu antigo amor, Gonçalves Dias. Desse encontro ele fez um dos mais belos e dolorosos poemas de sua autoria: “Ainda uma vez – Adeus!”. Embora esse encontro tenha despertado a paixão de Gonçalves Dias, possivelmente o mesmo não aconteceu com ela. Podemos perceber no próprio poema a negativa de Ana Amélia em rever o antigo amor.

 “Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?”

E continua:

“Nenhuma voz me diriges!…
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias – bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!”

 Ao encontrar o seu possível primeiro amor após tanto tempo, teria Ana Amélia primeiro ter mantido aquele sentimento de raiva e não querer com ele ter qualquer assunto?  A insistência de conversa de Gonçalves Dias com a amada porem devem ter despertado as lembranças do antigo amor:

 “Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;”

 A jovem de 24 anos provavelmente viu-se entre lembranças das melhores épocas de sua vida junto da família e seu poeta. Lembrança de sua casa, de seu pai, mãe, das irmãs. Lembrança do amor que provavelmente já não vivera mais em meio a penúria que estava vivendo.

“Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!”

Ao que parece nem mesmo uma palavra ela dirigiu a Gonçalves Dias. Se ela estava ali a passeio, deve ter ido imediatamente para sua casa e ali chorado por este encontro ter trazido tantas lembranças dolorosas.

O que se sabe é que após esse encontro acidental em Lisboa nunca mais se falaram ou se viram. Conta-se que teriam se encontrado mais uma vez no Rio de Janeiro também por acaso em 1858 quando um carro que transportava Ana Amélia acidentou uma criança e ela atrás de ajuda encontrou em uma casa o poeta. Mas este caso está mais para uma lenda ligada a vida de Gonçalves Dias.

De Portugal o casal vai para a Argentina onde passa pouco tempo e depois para o Rio de Janeiro (5) (6) onde fixam residência para reconstruir suas vidas. Foram residir na Rua Nova do Conde (atual rua Frei Caneca). Possivelmente ele trabalhou como caixeiro e cobrador da empresa das aguas servidas na Rua da Carioca onde durou pouco tempo (7). Depois deve ter entrado no ramo comercial importando produtos alimentícios de Portugal como caixas castanhas que recebera no porto em 1860.

Possível que as magoas do passado entre os pais e filha tenham se cicatrizado. Quando faleceu seu pai Domingos Ferreira Vale, ficou na partilha para o casal alguns escravos que foram entregues a eles no Rio de Janeiro por Álvaro Duarte Godinho. A filha de Ana Amélia receberia o nome da avó, Lourença da Silva Porto. Em 1862 ela já estaria assinando com o nome da família, como Ana Amélia Leal Vale Porto.

Ana Amélia enfrentou todas as adversidades que apareceram em sua vida ao lado de seu marido. Nascida em berço de ouro viu sua família lhe virar as costas por não concordar com o casamento. A sociedade ludovicense escandalizada pela quebra da tradição aristocrática. A falência, as dificuldades financeiras, a mudança de pais, a completa mudança de vida. Com tudo isso ela foi feliz ao lado dele.

Domingos da Silva Porto veio a falecer aos 51 anos de idade por lesão orgânica no coração deixando Ana Amélia viúva aos 33 anos de idade. Outra coincidência voltaria a vida do casal com o antigo amor de Ana Amélia. Domingos Porto morreu no mesmo ano de Gonçalves Dias, em 1864 no dia 09 de agosto (um dia antes do aniversário do poeta). Pouco mais de três meses depois morreria Gonçalves Dias.

ana6Necrologia: Missa em memória de Domingos da Silva Porto. Jornal do Comercio nº227, Rio de Janeiro – 15 de agosto de 1864.

Viúva, Ana Amélia retorna ao Maranhão com a filha Lourença no dia 07 de dezembro daquele ano. Em 1866 quando faleceu sua mãe, Ana Amélia estava presente em seu velório recebendo os amigos que foram ali prestar homenagens a matriarca da família Vale.

Pouco tempo depois Ana Amélia casou-se com Vitor Godinho (8), passando a se chamar Ana Amélia Godinho.  Deste casamento tiveram outra filha. Ana Amélia acabou ficando viúva de Godinho. Para ajudar nas finanças ela virou professora de piano onde dava aulas em sua residência na Rua da Estrela.

ana4Anuncio de aulas de piano de Ana Amélia em um jornal de São Luis em 1879.

Em 1881 uma publicação causaria alvoroço e irritação em São Luís. Era o romance ‘O Mulato’ de Aluísio Azevedo, em que denunciava a sociedade preconceituosa daquele período. O mestiço Raimundo (filho de uma escrava) se apaixonou por Ana Rosa, filha do comerciante Manuel Pescada (um português) que não concordava com o amor dos dois. Coincidência com Ana Amélia? Se ela chegou a ler o romance deve ter se identificado com a personagem dessa trama que viveu a anos atrás.

Existe a passagem de uma Anna Amélia Ferreira em viagem para Caxias em agosto de 1891 com dois filhos e uma criada (9). Seria nossa Ana Amélia visitando a cidade de Domingos Porto ou Gonçalves Dias? Não existe nenhum registro oficial de que ela tenha estado realmente em Caxias. Mas outra mulher com nome de Ana Amélia Ferreira no Maranhão também não.

Os anos se passaram e não existem mais registros de Ana Amélia. Teria vivido os últimos anos de vida na casa da filha e de seu genro na rua Colares Moreira, ao lado de seus netos e toda a família que lhe restava.

Em 1904, quando se faziam 40 anos de falecimento de Gonçalves Dias, houve uma grande homenagem do povo maranhense ao poeta que durou três dias. Em São Luís no dia 03 de novembro a cidade amanheceu em festa. Em cortejo pelas principais ruas da capital, a população ia seguindo as bandas de música até o Largo dos Amores em direção a estátua do poeta.

ana10População durante as festividades a Gonçalves Dias em 1904. Largo dos Amores, hoje Praça Gonçalves Dias – São Luis.

No dia seguinte foram marcadas festividades por toda a cidade e a noite espetáculos artísticos e musicais no Teatro São Luís (hoje Arthur Azevedo).

O Teatro estava cheio ocupado por populares, admiradores, autoridades e o Governador do Estado.  Todo ornamentado com palmeiras e outros adereços. Ali houve recital de poesias, apresentações e tudo que lembrasse a vida e obra de Gonçalves Dias. Quando subiu ao palco o intelectual Antônio Lobo, o público ficou atento as palavras que sairiam de sua apresentação. Coube a ele recitar o poema “Ainda uma vez – Adeus!”. E assim o fez de forma emocionante.

Em meio ao silêncio, houve-se um choro. Era um choro contido que não suportou tantas palavras ditas naquele palco. Depois viu-se que o choro vinha de uma senhora. Era Ana Amélia com seus 73 anos de idade.

Para todos os presentes era um poema. Para aquela senhora era uma confissão que ouvira a muitos anos atrás. O que seria de sua vida se as coisas tomassem um rumo diferente do que os dois decidiram naquela época? O seu antigo amigo e amor era então uma figura em que toda a alta sociedade agora se curvava. A mesma sociedade que reprovou seu namoro com ele e sua decisão de em seguida casar-se com outro mestiço.

Lerás porém algum dia
Meus versos d’alma arrancados,
D’amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; — e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, — de compaixão

Anna Amélia faleceu pouco tempo depois em São Luís, na noite de 26 de março de 1905. Seu velório aconteceu na casa de seu genro sendo enterrada no dia seguinte.

ana3Necrologia de Ana Amélia nos jornais de São Luis.

De sua descendência, sua filha acabou se casando com Agripino Azevedo (advogado, professor, abolicionista. Deputado Provincial, Estadual e Federal por 20 anos. Vice governador do Estado chegando a assumir o cargo). Deixou vários netos.

Ana Amélia foi acima de tudo uma guerreira. De uma doce jovem musa inspiradora de poetas apaixonados a mulher desafiadora de toda uma conjuntura arcaica que movia a sociedade. Esposa fiel, dedicada e assumindo papel de matriarca no fim da vida. Essa foi Ana Amélia. E esses foram seus amores.

 Texto e pesquisa: Eziquio Barros Neto

(1)   João Lisboa na defesa seu amigo e sócio João Pedro na quebra da firma em que se envolveu com Domingos Porto, assim compara os dois: “O Sr. João Pedro simples descendente de Adão e Eva, lida a sua noite e dia a dezoito anos para ajudar aos poucos uma modesta fortuna […]. O Sr. Porto pelo contrário, filho do sol, neto da lua, nunca se abaixou ao trabalho […]”. Publicador Maranhense, nº1642 de 1855.

(2)   Antônio Francisco da Silva Porto provavelmente era português ou descendente. A mãe de Domingos Porto era filha de uma negra de nome Eméria, escrava do Fidalgo Antônio Correia Furtado de Mendonça, ou a própria poderia ser também uma. Estabeleceu-se em Caxias onde entrou no ramo comercial da navegação. Tinha barcos que faziam viagens de São Luís a Caxias pelo menos desde a década de 1820. Na revolta da Balaiada, sua casa comercial ajudou os defensores em alimentos, dinheiro, auxilio a tropas e sacas para trincheira, recebendo agradecimentos públicos de patriotismo do prefeito João Paulo Dias Carneiro. Depois mudou-se para São Luís indo residir na rua da Estrela. No final da década de 1830 mudou-se para a Europa e deixou o negócio com seu filho e sócio Domingos. Antônio teve ainda outros filhos: Cipriano Francisco da Silva Porto, Benedito da Silva Porto e uma filha casada com o português João Ferreira Baltazar em São Luís. Faleceu em Lisboa já idoso.

(3)   Gonçalo da Silva Porto, nasceu no Maranhão em 1806. O jornal Correio Sergipense nº57 de 1863 o dá como nascido em São Luís. Estudou oito anos em Paris graduando-se em Letras na Universidade da França. Em seguida estudou Medicina por um ano e meio em Paris. Voltou para o Brasil instalando-se em Caxias entre os anos 1825 a 1828. Com a abertura do curso jurídico em Pernambuco, matriculou-se na Faculdade e bacharelou-se em Ciências Sociais e Jurídicas em Olinda.  Foi nomeado Juiz de Direito na volta ao Estado para a Comarca de Pastos Bons em 1834. Em Caxias foi nomeado Juiz Municipal e Órfãos, de Direito e Chefe de Polícia em 1837 ficando pouco mais de um ano no cargo. Foi Juiz de Direito na cidade de Alcântara, Brejo e ainda nas Províncias de Ceará, Pará e Sergipe. Foi Deputado Provincial no Ceará na década de 1850 sendo o 3º mais votado. Faleceu aos 56 anos de idade no dia 17 de agosto de 1862 de congestão cerebral em Aracajú, capital de Sergipe quando ali exercia o cargo de Juiz de Feitos da Fazenda. Morreu pobre deixando viúva e duas filhas sendo enterrado no cemitério municipal daquela cidade onde atraiu grande cortejo de amigos e admiradores.

(4)    Jornal O Estandarte, nº14 de 1855.

(5)   Quando foram residir no Rio existia naquele Estado um português chamado Domingos da Silva Porto, também Comendador. Abastado fazendeiro na cidade de Cabo Frio. Em 1859 ele teria socorrido náufragos do navio inglês Willian Gibson próximo a sua residência, onde pelo ato acabou sendo condecorado pelo governo inglês. Faleceu no mês de julho de 1861 aos 77 anos de idade.

(6)   Os biógrafos de Gonçalves Dias que traçaram a vida de Ana Amélia como a já citada obra de Lucia Miguel Pereira, o livro “Gonçalves Dias: Vida e Obra” de Jomar Moraes, entre outros confirmam que ela teve apenas uma filha com Domingos da Silva Porto. O jornal carioca Correio Mercantil nº19 de 19 de janeiro de 1857 dá a notícia de pessoas habitadas para obterem passaporte. “Dia 17 – Buenos AiresDomingos da Silva Porto, sua senhora e três filhos, brasileiros”. O pedido veio um dia depois do falecimento do pai de Ana Amélia. Seria mesmo o casal que passara pouco tempo em Buenos Aires e queria retornar ao Brasil? Se sim, estariam errado os biógrafos quanto ao número de filhos do casal Porto? Ou esse seria o outro Comendador Domingos Porto que residia em Cabo Frio? Mas o outro Domingos era português e a noticia deixa claro que são brasileiros. Mas se Ana Amélia teve três filhos, ela os teria em Portugal, portanto os filhos não seriam brasileiros. E se os biógrafos erraram também ao confundir os dois comendadores onde apenas o português estava em Buenos Aires e não o marido de Ana Amélia? Para complicar ainda mais uma carta de 18 de setembro de 1859 de autoria de Antônio Augusto Cesar de Azevedo e publicada no mesmo jornal nº267 diz que “O Sr. Comendador Domingos da Silva Porto, fazendeiro, quase octogenário, cheio de achaques, não sai de casa a anos…”. Portanto o português com quase 80 anos, com várias enfermidades e a muito tempo sem sair de casa, possivelmente não era o mesmo que vinha de Buenos Aires a dois anos atrás. No dia 14 de abril o mesmo jornal dá a notícia da chegada no dia anterior oriundo do Rio da Prata do mesmo casal com três filhos.

(7)   Jornal Correio Mercantil nº118, 01 de maio de 1857

(8)   Não consegui localizar nenhuma informação sobre Vitor Godinho. Apenas um Daniel Victor Godinho aparece nos jornais em viagem de Guimarães a São Luís em 16 de abril de 1875. Seria ele parente de Álvaro Duarte Godinho que foi ao Rio de Janeiro deixar os escravos do pai de Ana Amélia ao casal? Seria ele amigo da família? Se o casal foi morar no Rio de Janeiro como defendem alguns biógrafos de Gonçalves Dias, duraram pouco tempo pois em 1879 ela já estava residindo novamente em São Luís.

(9)  Jornal Pacotilha nº239, 31 de agosto de 1891.

Os amores de Ana Amélia – Parte I

O primeiro artigo do blog neste ano de 2017 é a historia da vida de uma das mulheres que tem seu nome registrado em um dos muito casos amorosos, e trágicos, da vida de poetas. Ana Amélia, a musa de Gonçalves Dias. Para que não acabasse em um texto muito longo o artigo foi dividido em duas partes. Nesta primeira trataremos da jovem Ana Vale e o seu amor por Gonçalves Dias.

ana1Ana Amélia provavelmente já viúva com pouco mais de 30 anos de idade.

Ana Amélia é uma personagem que ficou para sempre enaltecida como grande amor do poeta Gonçalves Dias. A menina moça de olhos negros que o encantou e a ela dedicou seus poemas mais profundos e dolorosos. Provavelmente se ela não tivesse entrado na vida do poeta com consequências tão dramáticas, Ana Amélia seria esquecia pela história. Por isso ela sempre teve a sua biografia ligada a paixão do poeta. Mas quem é essa mulher? Ela teve essa mesma paixão tão intensa carregada pelo resto de sua vida como fez Gonçalves Dias? Viveu até a morte com amor guardado em lembranças?

O que se sabe de Ana Amélia é a sua participação na vida de Gonçalves Dias. Fora isso, apenas informações de amigos da família ou seus descendentes onde alguns tiveram pouco ou nenhum contato com ela.

Ana Amélia Ferreira do Vale nasceu em São Luís em 1831. Filha do comerciante português Domingos José Ferreira Vale e Lourença Francisca Leal Vale. Seu pai, Domingos nasceu na freguesia de Santa Isabel, cidade de Lisboa, no dia 18 de julho de 1785. Jovem veio com a família para o Maranhão. Trabalhou como caixeiro e depois contador da firma de Ricardo Nunes Leal, onde conseguiu sucesso e fortuna. Casou-se com Lourença, sobrinha de seu patrão Ricardo Leal, em 1813 em São Luís. Lourença Leal vem de uma família tradicional de ricos comerciantes estabelecidos no Maranhão. Filha do português Antônio Henriques Leal (o velho) e da maranhense Ana Rosa de Carvalho.

Desse casamento vieram José Joaquim Ferreira Vale (Visconde do Desterro e um dos amigos que ajudaram Gonçalves Dias em Portugal onde dividiram hospedagem), Maria Luiza Leal Vale (Esposa de Alexandre Teófilo de Carvalho Leal), Inês Vale (Casada com o engenheiro Raimundo Teixeira Mendes, sendo o casal pais do filosofo positivista caxiense), Luzia Vale (falecida em 1860 não chegou a se casar) e Ana Amélia. Era prima de dois grandes amigos de Gonçalves Dias: Antônio Henriques Leal e Alexandre Teófilo de Carvalho Leal (seu cunhado).

A jovem Ana Amélia viveu como quase todas as garotas da aristocracia provinciana maranhense do século XIX. Cresceu aprendendo a como cuidar do lar e ser uma dedicada esposa. Pelo menos é o que se acredita, pois sua vida só se conhece quando apresentada ao Gonçalves Dias aos 14 anos de idade.

Em 1845, depois de sete anos longe de sua terra natal, Gonçalves Dias retorna ao Maranhão em março e imediatamente vem a Caxias matar saudades de sua casa e família. Em Caxias escreveu poemas, os recitou no Teatro Harmonia e também se envolveu em escândalos, como beber cerveja e fumar em público. Seus hábitos eram modernos demais para a provincial Caxias e por este motivo acabou indo a São Luís no início de 1846 por convite de seu amigo Teófilo Leal.

Ao chegar na capital da Província fica hospedado na casa de seu amigo, na Rua de Santana. A casa era um sobrado em que Teófilo residia com a esposa Maria Luiza Leal, seu filho, além de tias e primas. Foi ali que se conheceram. A jovem moça, prima de Teófilo o encantou de imediato. Não demorou para que Gonçalves Dias dedicasse a ela ‘Seus Olhos’, logo no dia 06 de fevereiro daquele ano.

 “Seus olhos são negros, tão belos, tão puros, 

assim é que são;

às vezes luzindo, serenos, tranquilos,

às vezes vulcão!”

ana2O sobrado a esquerda é a casa em que 
residia Teófilo Leal com sua família. Foi nesta casa que Gonçalves Dias 
conheceu e conviveu com Ana Amélia. Rua de Santana, São Luis.
Ao fundo a Igreja de Nossa Senhora de Santana. Imagem Google Earth.

Nos seis meses em que o poeta passou junto da família, experimentou um verdadeiro ambiente familiar. O ambiente que não encontrara em Caxias. Frequentava saraus na casa dos Leal, nos de amigos e participava de palestras. Ana Amélia provavelmente teve contato com Dias como nunca antes tivera com homens além de seus próprios familiares. Não era costume uma moça de família, ainda tão jovem, ter amizades com estranhos que não fossem aprovadas pelos pais. Ainda mais Gonçalves Dias, romântico, poeta e charmoso a sua maneira. Tinha o poeta 22 anos de idade. Ana Amélia, quase 15 anos. Idade que as moças já se preparavam para futuros pretendentes ao casamento.

A esposa de seu amigo, Maria Luiza Leal, a qual o poeta chamava carinhosamente de Mariquinhas, sua comadre, era excepcional pianista e sempre alegrava os bate papos em sua casa. Gonçalves Dias então aproveitada os momentos de alegria para brincar com Ana Amélia e suas outras irmãs. Gonçalves Dias confessaria que esse foi um dos melhores períodos de sua vida.

No mês de junho daquele ano Gonçalves Dias partiria rumo ao Rio de Janeiro onde publicaria o “Primeiros Cantos” e ganharia a consagração nacional. Ana Amélia continuava em sua vida cotidiana de moça prendada tendo aulas de piano.

Ana Amélia ia crescendo e chamando atenção de outros jovens e quem sabe até de pretenciosos senhores. Ela arrancou poesia não só de Gonçalves Dias, mas de outros que se fizeram poetas lançados por sua beleza. Um desses que a ouviu tocando peças de piano escreveu um poema para esta ocasião datado de 08 de novembro de 1849 e publicado no jornal Publicador Maranhense. O autor se identifica apenas pela sigla J. C. E.:

Anjo ou mulher te chamem muito embora;

No brilhante jardim das virgens nossas;

Tu és da régia flor botão mimoso;

Tu és, ó linda Amélia, o Gênio ilustre;

Com que Jeová brindará a Pátria minha.”

Em abril de 1851, nosso poeta retorna ao Maranhão. Não se sabe se nesse período nutria um amor platônico por Ana Amélia. O que sabemos é que na sua volta explodia a grande paixão do poeta pela moça.

Antes de conhecer a Leviana (1), o jovem Gonçalves Dias conheceu outros amores. Quando estudante passando férias em Lisboa, enamorou uma jovem filha da dona de uma pensão em que se hospedara com os amigos. A viagem demorou mais do que previsto graças a jovem que conquistou o poeta e que só não se casaram, por que seu amigo Teófilo interveio nesta súbita loucura da paixão.

Mas foi uma portuguesa de nome Engrácia que fez florar o um grande sentimento de amor em Gonçalves Dias. A ela dedicou os poemas “Inocência”, “Saudades” e outros que demonstravam a jovem de Coimbra a musa encantadora de seus sonhos. Ele a deixou, mesmo a amando, sabendo que a faria sofrer ao retornar a sua terra para trabalhar. Ele ainda passaria por encontros e desencontros amorosos a sua maneira, um romantismo gonçalvino raramente encontrado até mesmo nos poetas. O mesmo se repetiria com Ana Amélia.

Mas ao encontrar na jovem de olhos negros o amor verdadeiro, nem ele imaginaria que seria tão fugaz a paixão quanto dolorosa o seu fim. Em São Luís já na casa de seu amigo Teófilo, esperara reviver aqueles momentos mágicos de 1846. A jovem Ana agora era mulher. No dia 05 de outubro durante os festejos de N. Sra. Dos Remédios ia a família Vale e o poeta participar deste importante evento ludovicense. Entre danças, barracas, quadrilhas, lá estavam os dois, possivelmente em meio as brincadeiras. Ambos se enamoraram. Ana Amélia deixou-se apaixonar por aquele velho amigo da família que seus pais não consideram nem como hospede, mas como mais um de seus membros.

Dois amigos, dois amantes.

A paixão de Gonçalves Dias a Ana Amélia foi tão intensa que acabou esquecendo até de sua outra paixão: Caxias. No tempo que passou em São Luís de abril a novembro (Onde passou por Belém a trabalho neste tempo) o poeta não veio a sua terra natal visitar sua mãe Vivencia e nem banhar nas águas no riacho Ponte que tanto amava. Sua prioridade era outra.

O fim de sua estadia no Maranhão estava chegando ao fim. Deveria partir para o Rio passando por algumas Províncias do Nordeste colhendo informações para a missão que fora incumbido pelo Governo. Quando Gonçalves Dias estava pronto para pedir oficialmente a mão de Ana Amélia, sua mãe D. Lourença viaja para a cidade de Alcântara com as filhas. Ele confessaria em carta a seu amigo Teófilo que viajar com a incerteza da resposta de D. Lourença era de matar, ficando sem cabeça para nada. Decido, Gonçalves Dias então escreveu uma carta a pretensa sogra confessando o seu amor por Ana Amélia. Foi uma carta tão sincera que o poeta confessara até seu infortuno no mundo financeiro.

Embora a família de Ana Amélia nutrisse grande carinho pelo poeta, a sua origem indígena e humilde, a sua cor da pele eram empecilhos fincados nos alicerces das tradicionais famílias provincianas e aristocráticas ludovicense. Juntar-se a família por laços matrimoniais era uma audácia. A resposta de D. Lourença foi um não que o poeta recebera por carta quando estava em Recife em janeiro de 1852. Foi uma carta de apenas quatro linhas. Direta fora Dona Lourença. A reposta negativa devastou o poeta que seguia pelas províncias brasileiras a trabalho.

Ana Amélia que guardava os poemas do Dias, deve ter chorado de revolta primeiro por sua mãe, depois por Gonçalves Dias. A matriarca pela negativa de aceitar o romance. O poeta por não lutar por este amor que a iludiu.

Em carta, Ana Amélia sugeriu a ideia de fuga de sua casa com o poeta. A moça estava disposta a encarar a fúria dos pais e da sociedade. Mas Gonçalves Dias em temor de decepcionar a família da moça, que também era a família de seu grande amigo Antônio Henriques Leal, não aceitou o plano. Recolheu-se perante a negativa da Dona Lourença e preferiu o amargor da dor da perda. Em um momento delirante acabou pedindo a Ana Amélia que o esquecesse.

Talvez para esquecer seu amor e na esperança de seguir a vida, Dias casou-se com Olímpia Coriolana da Costa no dia 26 de setembro no Rio de Janeiro em 1852 (que a teria conhecido um ano antes). Gonçalves Dias não retornaria ao Maranhão tão cedo. Seguiu a trabalho para a Europa em junho de 1854. O casamento seria um erro onde não durou por muito tempo.

Aquelas ironias do destino que só os mais tórridos casos amorosos nos contos de romance são narrados, aconteceu na vida real. Anna Amélia acabou se casando com um mestiço de origem humilde e nascido no interior. Esse não é Gonçalves Dias. Mas sim Domingos Porto.

Na próxima semana a segunda parte da biografia de Ana Amélia. O revés em sua vida após o casamento, a relação com a família até sua morte.

(1) A Leviana – Poema de Gonçalves Dias a Ana Amélia publicano no ‘Primeiros Cantos’ em 1846.

 

Texto e pesquisa: Eziquio Barros Neto

100 Vespasiano – SEM Vespasiano

100 anos de falecimento de Vespasiano

Banner improvisado na praça Vespasiano Ramos no dia do centenário de morte do poeta.

Antônio Gonçalves Dias – Baia de Cumã, litoral maranhense.

Henrique Maximiano Coelho Neto – Rio de Janeiro.

Raimundo Teixeira Mendes (Positivista) – Rio de Janeiro.

Celso Antônio Silveira de Meneses – Rio de Janeiro.

Cesar Augusto Marques – São Luís.

Frederico José Correia – São Luís.

João Mendes de Almeida – São Paulo.

Raimundo Teixeira Mendes (Engenheiro) – São Luís.

Teófilo Odorico Dias de Mesquita – São Paulo.

Antônio Veras de Holanda – Floriano, Piauí.

Joaquim Vespasiano Ramos – Porto Velho, Rondônia.

De alguns dos nomes dos caxienses que dão os alicerces do panteão caxiense, nenhum descansa nas terras sagradas dos Timbiras e Gamelas. Alguns por residirem nas capitais onde exerciam atividades políticas ou profissionais. Outros por mero acaso do destino como Gonçalves Dias e Joaquim Vespasiano Ramos. No caso de nosso homenageado, houve uma real possibilidade de se fazer justiça e trazer os seus restos mortais de volta a seu leito mater.

Hoje dia 26 de dezembro de 2016, completa-se exatos 100 anos de falecimento do poeta Vespasiano Ramos, a qual os intelectuais, poetas e demais caxienses amantes das letras o tanto admiram. Traçamos, pois, a vida de nosso poeta na terra gonçalvina.

Em 1884 Caxias iniciava uma ebulição industrial e cultural. O operariado, a nova classe trabalhadora em Caxias, se dirigia ao bairro Ponte graças a visão dos grandes empreendedores da Companhia Prosperidade Caxiense. Responsável pela ligação daquela área ao centro da cidade com a construção da ponte de madeira e pela instalação das fábricas. A Sociedade Fênix Dramática Caxiense inseria nossa cidade no roteiro dos grandes espetáculos do país.

Foi nesse contexto que no mês de agosto deste ano, no Largo de São Benedito, em uma casinha de Morada Inteira de fachada simples sem revestimento, sem eira e beira, que nascia nosso poeta. Embora de família humilde, residia em área nobre, de frente ao templo religioso. Na infância ali brincou na terra batida debaixo das arvores. Presenciou festejos religiosos como o de São Benedito da janela de sua casa. Para o largo sempre se dirigia após os estudos, após conhecer o primeiro amor, após as bebedeiras. Aqui versou, aqui amou, aqui sonhou.

A cidade que Joaquim viveu na juventude era opulenta. Possuía a primeira estrada de ferro do Estado. Tinha um filho ilustre, Coelho Neto, naquele momento fundador da Academia Brasileira de Letras e que aqui esteve em 1899 visitando sua terra natal, onde fora recebido com as pompas merecidas. Vespasiano nessa ocasião estava prestes a fazer 15 anos de idade. É possível que também tivesse participado das festas ao nosso ‘Príncipe dos Prosadores Brasileiros’.

Ao completar a maioridade foi embora para São Luís e com saudades retornou. Por necessidade foi embora novamente mas dessa vez para bem longe. Foi com a certeza de que em breve voltaria para o seu largo de São Benedito. No dia 11 de janeiro de 1916, partira nosso poeta para São Luís e dali para o Norte do Brasil. Foi a última vez que Ramos estivera em Caxias.

Deixou saudades em nossa Caxias. Seus amigos e admiradores anos depois lhe dariam uma digna homenagem a altura que merecia. O largo em que nascera e que já tinha sido nomeado com o nome de um chefe político maranhense, foi renomeado. Em 23 de julho de 1931, pelo Decreto nº20 a praça passou oficialmente a se chamar Praça Vespasiano Ramos. Em 13 de agosto, dia em que o poeta completaria 47 anos se vivo fosse, o prefeito João Guilherme de Abreu inaugurava a praça toda reformada, em homenagem a este gênio da literatura.

Em 1949, pela Lei nº79 proclamada pelo prefeito Eugenio Barros, se instituía os símbolos de Caxias em sua bandeira. A Lira Dourada simbolizava quatro poetas caxienses, entre eles nosso Quincas.

Aproximava-se o ano de 1984, o ano de centenário de seu nascimento. Por iniciativa do Deputado Estadual João Afonso Barata é aprovada a Lei nº 4.225 de 1980, sancionada pelo Governador João Castelo (seu parente), que autorizava o Executivo a trazer os restos mortais do poeta de volta a Caxias. Muito tempo passou e nada fora feito.

Chegamos a 2016, o ano de centenário de seu falecimento. Era a hora de pôr em pratica o que a Lei determinara a mais de trinta anos. Era a hora de seu repouso eterno estar completo. A hora de corrigir o erro do destino que o deixou em terras desconhecidas. Era a hora de finalmente o caxiense acender a vela em seu túmulo.

A praça foi reformada. Os restos mortais não vieram. Sequer uma placa em seu nome fora assentada. Perdemos essa oportunidade.

No dia 26 de dezembro de 2016, se não fosse atitude de alguns admiradores do poeta que foram a praça lhe prestar homenagens, não haveria absolutamente nada em memória a essa data. Nada foi feito por quem se orgulha de propagar que somos a cidade dos poetas.

Se aqui as gerações de políticos não deram importância, o povo de Porto Velho o recebeu de braços abertos. Rondônia o adotou como seu filho. Seu túmulo, reformado e transformado em Patrimônio daquele povo. Porto Velho está de parabéns.

Se os seus restos mortais não vieram, se a estátua não foi inaugurada no ano de seu centenário, pois que esse ano de 2016 sirva como a data que se início o movimento de correção histórica. Conclamo aos caxienses, façamos a Comissão Pró-Monumento para lutar por esta obra. Abraçamos esse desafio de nós mesmos, o povo, tomar essa atitude em memória a nosso querido Joaquim Vespasiano Ramos, para que na festa de seu bi centenário a sociedade caxiense não tenha novamente que passar por algo semelhante: O CEM anos, SEM a homenagem ao poeta.

Texto: Eziquio Barros Neto

Caxias volta a ter cinema – Parte II

O cinema se estabelece

Passada a fase itinerante do cinema em que as projeções eram espetáculos que serviam para encantar os telespectadores, a sétima arte se instala de vez no Maranhão como um novo tipo de entretenimento. O cinema continuou em salas alugadas de teatros e salões até as firmas cinematográficas possuírem sedes próprias. Em 1909 o Maranhão ganha o seu primeiro cinema o ‘Cinema São Luiz’ nas dependências do Café da Paz, localizado na praça João Lisboa. Embora ainda não tivesse prédio próprio funcionando em um espaço de outro empreendimento, era a primeira vez que o cinema funcionava de forma permanente em um local fixo.

Em Caxias o cinema também iniciou as atividades dentro do teatro. O ‘Phenix’ era o local mais apropriado para a projeção, sendo um ativo local onde recebia peças teatrais e demais eventos sociais além de possuir amplo salão com poltronas confortáveis.

O primeiro cinema a funcionar em Caxias, segundo o historiador Rodrigo Bayma Pereira, é o ‘Cine Odeon’ já em funcionamento em 1918, também nas dependências do Teatro Phenix. Em 1920 ele já estava funcionando em uma casa alugada para suas exibições. Durante os intervalos das apresentações eram comum apresentações e conferencias, como aconteceu no Odeon no mês de abril de 1920 a palestra “Rabo de Saia” do poeta Vicente Alves de Souza, o Galiza.

No mesmo ano em 1920 estava em funcionamento o Royal Cinema, de José Ommati. A empresa fora criada para exibição de filmes e funcionava também no Teatro Phenix. Os ingressos eram vendidos na residência de Dona Balbina Silva, na rua Riachuelo. Em seguida o cinema mudou-se para um imóvel na esquina da Praça da Matriz. Em 1927 o Royal foi comprado por Pedro Costa, onde após passar por reforma passou a chamar-se ‘Cine Jahu’. Esse cinema mudou-se para um casarão na Praça Gonçalves Dias, onde depois foi demolido e em seu lugar construído o Colégio Gonçalves Dias, hoje o prédio do antigo Forum. O mesmo Pedro Costa em 1931 fundou o ‘Cinema Guarany’, voltando a exibir filmes nas dependências do Phenix.

 1 Jornal do Comercio, 1920 – Anuncio de filmes em exibição.

rrrrr Anuncio no Jornal do Comércio de Caxias em 1920 do filme em forma de seriado “The Exploits of Elaine” ou “Os Mistérios de Nova York” de 1914. Sucesso mundial. Ao lado o cartaz original distribuído nos cinemas pelo mundo.

O auge

Os cinemas que se seguiram em Caxias quem nos dá a lista novamente é o historiador Rodrigo Bayma. Na década de 1930 foi fundado o ‘Cine Rex’ na rua Aarão Reis. Em 38 mudou-se para um prédio próprio na rua Afonso Cunha. Era um prédio com instalações de cinemas com sala confortável. O prédio da Aarão Reis em que funcionou o Rex, foi reformado por Valdenor Lobo por volta de 1940 e instalado o ‘Cine Pax’. Cerca de dez anos depois o Pax foi vendido e o nome mudado para ‘Cine Glória’. Não demorou muito e o Gloria mudou para um salão do Palácio do Comércio. De frente ao Glória é fundado o ‘Cine Plaza’, de propriedade de Antônio Pereira Lima. Após a venda do Glória para a firma ‘Caldas e Ferreira’ teve o nome mudado para ‘Cine Alvorada’. O Alvorada vendido mudando o nome para ‘Cine São Luís’.

Na década de 1960 dois cinemas estavam em atividade em Caxias: O ‘Cine Rex’ e o ‘São Luís’. O São Luís de propriedade de José Ferreira apresentada os melhores filmes pois o eu proprietário ia pessoalmente a Recife e Teresina em busca das películas. O Rex de propriedade de Carvalho Neto, o mais antigo, dependia dos filmes enviados por seu fornecedor, o que o deixava em desvantagem nos lançamentos. Em compensação o Rex era o que mais oferecia conforto e qualidade. Porem perdia clientes por falta de atração. O São Luís, sofria com reclamações onde os clientes assobiavam e batiam nas cadeiras em protesto a péssima qualidade de imagem e som e constantemente o proprietário entrava na sala ameaçando expulsar os revoltosos. Na inauguração do Armazém Paraíba ocorrida no dia 30 de julho de 1967, o Rex e o São Luis passaram o dia exibindo filmes de graça a população patrocinados pelos empresários Valdecy e João Claudino, proprietários do Paraíba.

Os caxienses frequentavam o cinema não apenas para assistir filmes, onde muitas vezes o filme em exibição era o de menos. Era um programa familiar, lugar de início de vários namoros e por vezes o único lazer da juventude. As pessoas se organizavam para ir ao cinema, se socializavam nas praças antes e depois das sessões.

 20140713_150153 Rua Aarão Reis. O imóvel de cor amarela onde hoje funciona uma loja de produtos popular, foi onde funcionou os cinemas Rex, Pax e Glória. Infelizmente por falta de normas urbanistas, a poluição visual esconde os seus elementos originais e a sua história.

As últimas décadas

Com o fim do Cine Rex, o prédio foi reformado para abrigar a atual sede do Armazém Paraíba. Existe registro que o Cine Rex também teria funcionado na rua Afonso Pena em 1962.

O Cinema São Luís continuou nas dependências do prédio da Associação Comercial, entre a pizzaria Nostra Pizza e o Excelsior Hotel. Ali foram exibidos muitos filmes infantis como dos Trapalhões nas matinês e a noite os lançamentos para os adultos. Era apenas uma sala e um filme por vez. Não demorou logo passou a exibir apenas filmes de conteúdo adulto o que o levou a encerrar as atividades junto com os vídeo games e fliperamas que existiam no hall. O prédio passou muito tempo desativado, posteriormente servindo como anexo da Nostra Pizza e hoje em dia uma loja de produtos populares.

A decadência dos cinemas de rua nas medias e pequenas cidades logo nos atingiu. Os últimos anos de exibição de filmes em Caxias foram nos anos de 1990. Após o fim do Cine São Luís outro espaço a exibir filmes na cidade foi na sede da Duda Games. Era do mesmo proprietário da locadora de fitas VHS Kyara Vídeo, mas primeiro funcionava apenas como locadora e espaço para jogos eletrônicos. Era uma pequena sala atrás dos vídeos games e fliperamas. Ao contrário dos anteriores onde os filmes eram em películas como todo cinema, esse era de filmes da locadora do proprietário. Muitos filmes eram antigos, a maior parte de artes marciais que tinha uma verdadeira legião de fãs na época em Caxias. Bruce Lee, Jean Claude Van Damme e demais artistas de filmes ‘de luta’ como eram chamados. Assim como o São Luis, o Duda passou a exibir também filmes de conteúdo pornográfico, mas onde os clientes eram boa parte a garotada que frequentava os games. Em seguida assumiu o local outro proprietário de games, agora com o nome Games Fera. Era a mesma proposta do anterior, também com pouca duração.

O último cinema foi uma sala de exibição na rua Aarão Reis em frente à rua que passa por trás da igreja da Matriz. A sala pertencia ao dono da vídeo locadora Fox, daí se chamando ‘Cinema Fox’. Improvisado e de baixo custo teve curto período de funcionamento. Ainda houveram outras tentativas de se inaugurar um cinema em Caxias por empresários de locadoras locais. Uma das ideias era no prédio do antigo Forum que ficara desativado devido a transferência para a Cidade do Judiciário. Mas não saiu do papel. A Academia Caxiense de Letras por volta de 2011 cedeu o seu espaço para o projeto ‘Cine na Terça’. Encabeçado pelo escritor e músico Isaac Souza, exibia filmes clássicos e cult no auditório atraindo jovens do meio literário e cultural.

Agora em 2016 Caxias volta a abrigar uma sala de cinema nas dependências de seu primeiro shopping center, as margens da BR-316. *Hoje em exibição a estreia do filme ‘Star Wars – Rouge One’. Caxias assiste esse filme no mesmo dia em que é lançado mundialmente.

Texto, pesquisa e foto – Eziquio Barros Neto

 *Texto escrito no dia da estreia do filme, porem publicado uma semana depois por ser em duas partes.