Dídimo

A incredulidade de São Tomé – Caravaggio

Quando voltei para Caxias, recém formado em arquitetura, fui convidado a fazer parte do corpo técnico da Prefeitura Municipal. O desafio era cooperar com a equipe responsável pela elaboração do seu primeiro Plano Diretor, o que me fez participar de várias reuniões com diversos tipos de representantes de classe e sociedade. Um dos pontos de interesse do Plano era o patrimônio histórico, de atuação inexistente por parte do poder municipal. A proposta era criar o nosso próprio Departamento capaz de criar políticas de preservação, restauração e fiscalização. Finalmente era a hora de pôr em pratica essa ideia e botar para funcionar.

Em uma dessas reuniões, auditório do Memorial da Balaiada repleto de autoridades, professores e entusiastas da história caxiense, uma pessoa pede para falar e se levanta: é o professor Manoel de Páscoa, o Passinho, sentado bem a meu lado.

Na sua intervenção, sempre rica de conhecimento e aquela sua oratória sacra, disse ele: “Já participei de muitas reuniões como essa para decidir a gestão de nossa cultura, muitas promessas foram ditas, inúmeras, e hoje me encontro como São Tomé. Só acredito vendo”.

Eu um jovem entusiasta na hora não entendi bem aquelas palavras. De certa forma me deixou incomodado. Era um pessimismo em meio àquela oportunidade de transformação em nosso meio cultural. Ali estavam as ideias, ali estavam as pessoas necessárias.

E hoje, professor, hoje é que eu entendo suas palavras. A dúvida colocada naquela mesa se confirmou. O senhor não viu.

Depois de participar de tantas e tantas reuniões depois daquela, de posar para várias fotos em eventos ao lado de autoridades, de ouvir as mesmas promessas, praticamente nada fora feito como bem o senhor citou. ‘De tanto ver triunfar as nulidade‘ como disse Rui Barbosa, hoje sou que que virei um São Tomé.

Nosso patrimônio histórico só não continua na mesma, porque piorou.

Não fui seu aluno, professor Passinho. Mas esse dia, essa suas palavras, me marcaram até hoje. Foi um ensino sobre como as coisas acontecem em Caxias.

Vá com Deus.

Academia de Letras lança campanha para construir monumento a Vespasiano Ramos

A Academia Caxiense de Letras – ACL, lançou uma campanha para a construção de um monumento em memória ao poeta Joaquim Vespasiano Ramos, para ser inaugurado no dia 19 de agosto deste ano, na praça em que leva o nome do poeta.

Vespasiano nasceu em um imóvel naquela praça em 1884 e faleceu na cidade de Porto Velho-RO em 1916. Em 1931 o antigo largo de São Benedito foi batizado com o nome do poeta e desde então nunca se fez uma placa sequer com o nome de Vespasiano. Ano passado o blog escreveu sobre essa falta de memória da cidade no ano de seu centenário. Leia o artigo aqui.

A campanha será totalmente financiada com ajuda da sociedade caxiense. Qualquer pessoa, empresa, sociedade, etc… pode colaborar com esta campanha. O colaborador terá seu nome gravado em uma placa de aço, fixada junto ao monumento. Por isso é importante a doação ser via DEPÓSITO NOMINAL para a Conta Corrente da Academia Caxiense de Letras:

Banco do Brasil

Ag: 0124-4

CC: 11.871-0

O valor mínimo é de R$100,00

O largo de São Sebastião

O largo de São Sebastião. A direita o ginásio João Castelo e a esquerda a capela de São Sebastião.

No momento em que parte da sociedade se propõe a debater a polêmica construção um Santuário a Nossa Senhora das Graças ao lado das ruínas do antigo Quartel, descaracterizando seu entorno de história e lutas, a quase cinquenta anos algo parecido aconteceu em Caxias em outro local importante onde se travou uma batalha na Balaiada: o largo de São Sebastião.

Em um artigo para o jornal Folha de Caxias em 1970, o cronista Hélio B. Nogueira denuncia o loteamento do largo, o que apagaria seu legado histórico.

Abaixo a integra do artigo se respeitando a grafia e pontuação da época:

“1839. Caxias sitiada pelos rebeldes Bentevis. Grupos heterogêneos de lavradores, professores, juízes, advogados, fazendeiros, poetas, religiosos, militares, comungados no propósito de afastar o português, que, apesar de proclamada a Independência, continuava dando as cartas na Província Resistência heroica dos sitiados. Um comício no largo da igreja dos Remédios, dispôs os homens nos corpos de infantaria, esta última constituída de dois velhos canhões instalados nos fundos da Igreja de São Benedito. As mulheres, formam o Corpo Auxiliar. Cria-se um hospital de sangue, no largo da Igreja do Rosário.

Afinal, onde, hoje, se estende o Largo de São Sebastião, a batalha maior, decisiva. Um dia inteiro de luta: A tiro, a faca, a pai, a soco. Ninguém ousa retirar os cadáveres acumulados. E, a noite, cede a resistência dos defensores. Emissários consultam os chefes rebeldes sobre as condições de rendição. Poucas – respeitarão a família, e a religião, querem processo e julgamento dos chefes da cidade e dinheiro para pagamento das tropas. Caxias, ao amanhece de 2 de junho, fora ocupada por 6.000 rebeldes.

Esse nosso Largo de São Sebastião prosaico, de barro batido, deveria assim, ter o carinho próprios aos locais sagrados da História de um povo. Que se montasse nele um monumento, uma pedra por exemplo, com a placa “Junho/1839. Guerra da Balaiada. Aqui se travou a batalha decisiva pela posse de Caxias”.

Todavia, para amargura de nós, caxienses, fala-se de um loteamento, já em curso, desse mesmo Largo de São Sebastião. Traduzindo – deixará de ser largo, de ser História, para ser ruas, conglomerados de casas um órgão a mais amputado dessa cidade tão histórica, tão merecedora de melhor tratamento. Por que esse loteamento? Estamos porventura, em situação de calamitosa para termos de vender nossas relíquias? Para que trocar nossa característica de cultura, de arte – manifesta em nossas igrejas seculares, em nossos casarões de pedra e cal, em tantos logradouros públicos – por construções de saber argentário, e sofisticado, que em vez de progresso, indica provincianismo enfatuado? Lotear o nosso Largo de São Sebastião é afogar ainda mais a cidade, já as voltas com a multiplicação demográfica. Por que não estende-la as áreas periféricas, como, inteligentemente, se vem fazendo em São Luís?

Sentimos, como bom caxiense, a aflitiva amargura da desfiguração de nossa bela Caxias. Aqueles bancos, amplos, de pura arte barroca, que caracterizam nossa Praça Gonçalves Dias, se foram em favor dos atuais sem nenhuma expressão especial. Suas palmeiras se findam e cachorros pelados lhe substituem os roseirais. O Morro do Alecrim, repositório de História está irreconhecível. O que cairá também, depois do Largo de São Sebastião?

Minas Gerais zela até as telhas das velhas casas de Ouro Preto. A Bahia tem ciúme de um pedaço de calçada do passado. Petrópolis gasta muito para salvar a presença das hortênsias nos jardins tradicionais. A Guanabara preferiu instalar um pisca pisca vermelho em uma velha arvore existente no centro da avenida do Exército, estreita e muitíssimo movimentada, para não sacrifica-la.

São exemplos. Que, nesta época de modificações inerentes ao desenvolvimento de Caxias, precisam ser lembrados. Progresso, sim, mas planejado, equilibrado, para não destruir o que se tem de bom”.

A falta de planejamento, ausência de tato com o bem patrimonial, ignorar o entorno monumental de rica história são costumes que ainda se mantém em Caxias. Em 1970 alguém já alertava esse tipo de intervenção em locais históricos, tirando sua história. Não o progresso, é a vaidade provinciana, como ele disse em seu artigo.

O texto de Hélio Nogueira deixa claro a sua preocupação com o recapeamento urbano de uma área histórica. A área do largo foi palco da maior batalha dentro de nossa cidade em que os caxienses tentaram de todas as formas, literalmente na mão, defende-la da invasão rebelde.  A esse ato heroico, não existe o reconhecimento do poder público a seu povo, como um monumento.

Nesse artigo já se fala do Morro do Alecrim como ‘irreconhecível’. Ele se refere ao loteamento realizado na década de 1960 pelo prefeito Aluísio Lobo. O largo foi loteado, criado a avenida General Sampaio, e parte das ruínas destruídas para construção de uma quadra de esportes. O que diria ele se soubesse da construção de uma monumental estátua de santo católico no solo sagrado de Fidié e Duque de Caxias?

Outros pontos da cidade

O largo de São Sebastião não é a única praça que não faz referência a sua história. A praça Vespasiano Ramos, reformada completamente ano passo, não tem nada que lembre o seu patrono. A Cândido Mendes é outra que tomada pelo tom religioso do templo católico da Matriz. Nela criou-se o aglomerado urbano da cidade e foi lido o ato de independência do Brasil. A praça de Nazaré no bairro Trizidela, onde nasceu a cidade de Caxias na ocupação indígena e posteriormente ocupada pelos jesuítas europeus, é outra que não traz nenhuma referência a nossa história.

Em Caxias não existem referências a Balaiada e muito menos a Independência. A rua 1º de agosto foi renomeada. Monumentos aos dois conflitos nos locais que ocorreram batalhas ou pontos estratégicos? Também não. No máximo escolas ou campos de futebol com nome do vitorioso Duque de Caxias.

O monumento a luta pela nossa Independia e a Balaiada não é uma mera ode aos vitoriosos heróis militares ou a revolta das camadas mais baixas da época. É acima de tudo o simbolismo da luta do caxiense, da bravura de nosso povo. Do alfaiate ao professor, do empregado ao proprietário, do soldado ao seu capitão.

Agora é o Morro do Alecrim se encontra ameaçado. O pouco que resta do chamado “centro histórico” respira por aparelhos. Se o projeto for adiante será a pá de cal no que sobrou da nossa história.

Nossa Caxias é rica em história e pobre, paupérrima mesmo, em memória

Libânio da Costa Lobo

Texto e imagem: Eziquio Barros Neto

 

Bairro Ponte

Escola Estadual Aluísio Azevedo – Av. Vespasiano Ramos, Ponte.

A chaminé é o único resquício da monumental fábrica Fábrica União.

A Fábrica era propriedade da Companhia União Caxiense, fundada em 22 de outubro de 1889. A mesma Cia proprietária da ‘Manufactora’, atual Centro de Cultura. Era seu fundador e seu primeiro Diretor o incansável Francisco Dias Carneiro. Grandes nomes seguiram Dias Carneiro em sua Diretoria, como: Álvaro Camões, Libânio Lobo, Caetano de Moura Carvalho e Raimundo Ferreira Villa Nova.

Era movida por um motor a vapor de 300 cavalos, 220 teares (maior que a Manufactora) produzindo tecidos crus e tintos. Com o fim da indústria têxtil em Caxias, funcionou em suas dependências uma fábrica de óleo de babaçu onde depois de algum tempo também fechou.

Essa joia arquitetônica caxiense, com o peso de sua história para o comercio do Maranhão e os nomes que lhe sustentaram, não foram suficientes para que lhe garantisse suas paredes de pé. O prédio foi totalmente demolido e sua estrutura desmontada e vendida por volta da década de 1950.

Em seu lugar, por cima de seus alicerces, foi construído em 1976 a escola Aluísio Azevedo, onde funciona até hoje nos três turnos.

Foto e texto: Eziquio Barros Neto

Reprodução PROIBIDA sem a devida autorização

Assis Chateaubriand em Caxias

Chateaubriand inaugurando a ponte de concreto sobre o riacho das Lages, divisa do Centro com Cangalheiro. No canto direito o Governador Eugenio Barros e com a mão na cabeça o prefeito de Caxias Alcindo Cruz.

Em 22 de janeiro de 1956 o Governador do Maranhão Eugenio Barros esteve em Caxias para inauguração de diversas obras pela cidade. Foram elas: As pontes de concreto sobre o rio Itapecuru e riacho das Lages, urbanização do balneário Veneza e a inauguração do hospital Miron Pedreiras. Foi realizada também sessão de inauguração do novo prédio dos Correios e Telégrafos, local onde se encontra instalado até hoje.

Na sua comitiva estavam diversos jornalistas, radialistas e políticos maranhenses, entre eles os Senadores pelo Maranhão Assis Chateaubriand e Sebastião Archer da Silva. Do Governo Federal estavam Lino Machado Filho (representando o Ministro da Saúde), Lauro Neiva e Mauro Vasconcelos (ambos representando o Ministro da Fazenda). E ainda: Alexandre Costa, Aluísio Lobo, Alderico Machado, Alcindo Cruz, Bispo Luiz Marelin, entre outros.

No fim das solenidades foi oferecido um churrasco no novo prédio construído no complexo da Veneza.

Fonte: Imagens da revista O Cruzeiro.

Prefeito Alcindo Cruz Guimarães discursa na inauguração da ponte sobre o rio das Lages.

Chateaubriand e Alderico Silva a frente na inauguração do hospital Miron Pedreiras. Atrás o Governador Eugenio Barros e demais autoridades.

Bispo de Caxias Dom Luiz Marelin discursando. Ao lado Assis Chateaubriand cumprimentando populares caxienses.

Eugenio Barros e sua esposa Rosalina Barros no baile após inauguração.

Sebastião Archer ao lado das jovens Maria Barros e M. R. Macedo.

‘O frevo esteve presente as festas, quando uma jovem da sociedade local resolveu brindar os presentes com uma bela exibição da famosa dança dos pernambucanos’. Assim noticiava a revista sobre a imagem da jovem caxiense.

Churrasco no balneário Veneza. O local da refeição foi no prédio recém inaugurado que fazia parte da urbanização da área de lazer. Depois no local funcionou um hotel. Com o tempo ele foi abandonado e demolido.

Residência de João Mendes de Almeida

Em 1929 a revista O Cruzeiro fez uma matéria sobre as tradições da cidade de São Paulo que estavam se perdendo. Na arquitetura, nas artes e inclusive as antigas mobílias de tradicionais famílias paulistanas que já não cabiam nas modernas propostas daquele período.

A família Mendes de Almeida que residia na capital, era uma das que guardavam boa parte do mobiliário tradicional.

Na primeira foto um Guarda-Louças, com a inscrição gravada de 1867 com conjuntos de pratos, taças e algumas peças raras de cristais também daquele período. Na segunda foto uma Escrivaninha-Estante, onde a família guardava trabalhos de João Mendes de Almeida. E na terceira foto uma cama com gavetas.

A cama e o guarda-louças pertenciam a antiga Casa Verde da família de José Arouche de Toledo Rendon (fundador da Faculdade de Direito de São Paulo) e onde se originou o bairro Casa Verde. A escrivaninha era da biblioteca particular de João Mendes onde ele trabalhava. Os moveis foram adquiridos por João Mendes de Almeida e passou a seus descendentes.

A família ainda guardava dois cafiotes (mala ou baú velho) que foram usados na Balaiada e que foram levados de Caxias a São Paulo por João Mendes.

João Mendes de Almeida nasceu em Caxias no dia 22 de maio de 1831 e faleceu em São Paulo em 16 de dezembro de 1898. Jurista, jornalista e político. O povo paulista em homenagem a este grande caxiense batizou o antigo Largo Municipal como Praça João Mendes de Almeida, que fica localizado atrás da Igreja da Sé, no Centro.

Imagem – Coelho Neto

O jornalista Paulo Barreto, o João do Rio, em Momento Literário assim descreve o dia de Coelho Neto:

“Coelho Neto acorda as 5 horas da manhã, senta-se a escrever as 6, trabalha até as 12, vai para a ducha fria, almoça e as 3 da tarde, recomeça, para só terminar quando se acendem as primeiras luzes da cidade”.

Coelho Neto em seu gabinete de trabalho no Rio de Janeiro no ano de 1914

Maria Gabriela Coelho Neto (Gaby) – Esposa de Coelho Neto