152 anos de falecimento de Gonçalves Dias

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Jornal do Comercio – Caxias, 03 de novembro de 1915 em homenagem ao poeta.

No dia 03 de novembro de 1864 a cidade de Caxias, o Maranhão e o Brasil perderiam um dos mais idolatrados poetas da literatura brasileira: Antônio Gonçalves Dias.

A última vez que o poeta estivera em Caxias foi no final de 1861. Por aqui passou pouco mais de uma semana acompanhado de amigos e familiares onde em seguida partiria para o Rio de Janeiro. Em abril do ano seguinte embarca desejando regressar ao Maranhão, mas ao chegar em Recife é aconselhado a imediatamente seguir a Europa tratar de sua saúde, pois senão morreria. Dali embarcou para Marselha, na França. Foi a última vez que o poeta pisara em solo brasileiro.

A melhora no velho mundo não veio e, consciente de que sua situação só piorava, decidiu voltar a sua terra natal e ali ao lado de amigos e familiares viver seus últimos dias, ou então esperar uma intervenção divina para que sua saúde melhorasse respirando os ares que tanto amava.

No porto de Havre na França, embarca no Ville de Boulogne, um antigo veleiro movido a vapor com tripulação estimada em cerca de 12 marinheiros, um capitão e nosso poeta como único passageiro. No embarque dois amigos foram lhe desejar boa viagem e passar algumas instruções ao capitão do Ville. O diplomata brasileiro Vasconcelos Drummond deu instruções sobre os cuidados que nosso poeta necessitava e ainda mais: sabendo da gravidade de seu estado de saúde recomendou que caso falecesse a bordo, que seu corpo fosse preservado a todo custo para ser enterrado em São Luís, prometendo indenizar as despesas. A viagem atravessando o oceano atlântico até São Luís duraria cerca de cinquenta e três dias.

Durante quase todo esse tempo nosso poeta ficou em seu camarote acamado. Sem poder se locomover não tinha como acompanhante um amigo ou parente para lhe ajudar. Dependia da boa vontade da tripulação do Ville que o ajudara nas necessidades básicas. Os dias foram longos. Na última semana de viagem, Gonçalves Dias nada conseguia comer, apenas tomando agua com açúcar.

Nosso poeta entrara nas aguas brasileiras. Finalmente estava na terra mãe. Posso imaginar a expectativa do poeta ao ser avisado por algum marinheiro que já estavam em aguas maranhenses. Deve ter feito um enorme esforço, sem sucesso, para espiar pela janela de sua cabine as terras maranhense que já eram visíveis. Teria ele tentado olhar a índia Marabá lhe acenando? ‘–Bem vindo poeta, ouça o canto do sabiá’. Nosso poeta insistiu para ser levado até o tombadilho do navio para ver sua terra que tanto aguardava. A emoção foi em demasia que nosso poeta desmaiou. Fraco, quase um moribundo, foi levado nos braços de volta a cama onde em poucos dias desembarcaria. Foi a última vez que viu o Maranhão.

Na noite de 03 de novembro as aguas estavam tranquilas, sem nevoeiro e nem chuva e nosso poeta pouco mais de 50 quilômetros de distância do porto de São Luís. Mas a noite não era possível visualizar os bancos de areia e rochas nas aguas da região do Baixos dos Atins, na Baia do Cumã, próxima ao município de Guimarães. Região conhecida como um cemitério de embarcações. O Ville acerta um desses bancos e o navio encalha. No impacto, o navio racha e toda tripulação consegue sair do navio a nado até acharem a praia. Menos nosso poeta. A viagem para ele durou 49 dias. Seu sonho de ser enterrado na sua queria Caxias não se realizou. Quis o destino que fosse lhe dado o mar como seu túmulo eterno.

O Brasil entrara em verdadeiro luto.

Uma carta enviada ao jornal maranhense O Paiz descreve a emoção da sociedade caxiense: “A morte de Gonçalves Dias causou aqui, seu berço natal, a impressão mais dolorosa; parecia que cada um tinha perdido uma pessoa de sua família. Não havendo outro remédio senão resignarmos com a vontade suprema fomos todos, caxienses e não caxienses, implorar a Deus por aquele que soube elevar tão alto esta terra… Mas de tudo o que mais tem impressionado aos amigos do poeta é a triste posição que fica reduzida a sua pobre mãe, pois ele era o seu arrimo, e quem lhe dava uma mesada para passar os seus cansados dias”.

No dia 17 de novembro foi realizada uma missa em sua memória na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios celebrada pelo padre J. Guimarães. Na igreja estavam presentes sua mãe, suas irmãs, amigos e vários admiradores. O sermão do padre causou emoção na missa levando muitos as lágrimas.

Sua mãe, Dona Vicência Mendes Ferreira passou o resto de sua vida em Caxias residindo com suas filhas, irmãs do poeta, Vicência e Carlota em uma casinha na Travessa das Violas até falecer. Foi enterrada no Cemitério dos Remédios e seu túmulo se perdeu no tempo.

O Rio de Janeiro logo mudara a antiga Rua dos Latoeiros (Onde ficava o prédio em que o poeta escrevera Segundos Cantos) para Rua Gonçalves Dias. São Luís mudou o Largo dos Remédios para Praça Gonçalves Dias. E assim em várias cidades pelo Brasil.

Em sua terra natal o antigo Largo do Poço ganhou o nome do seu filho mais ilustre. A estátua do poeta que a sociedade se mobilizou para erguer, só veio mais de cinquenta anos depois, na década de 1920 em forma de busto. A Rua do Cisco que o poeta passara sua infância e conheceu as letras, mudou várias vezes de nome, menos o seu. O sobrado em que de sua janela ouvia de longe o canto dos sabiás foi demolido. Queira Deus que um dia alguém não tenha a infeliz ideia de mudar o nome da Praça Gonçalves Dias.

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1 – Jornal O Paiz (São Luis -MA) de 05 de novembro de 1864, dois dias depois do naufrágio. 2 – Jornal Constitucional (São Luis -MA) de 16 de novembro de 1864 – A suspeita pela culpa da morte do poeta cai sobre os tripulantes do navio que o teriam abandonado. 3 – Jornal A Fé (Maranhão) de 16 de novembro de 1864 lamenta a morte do poeta.

Texto – Eziquio Barros Neto

Fábrica Manufatura União Caxiense

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Fabrica Manufatura União Caxiense em pleno funcionamento. Foto datada de 1900.

As esquadrias eram bem diferentes de hoje em dia, além de pequena mureta de proteção da mesma cor das paredes. A Praça da Independência (hoje do Panteon) sem urbanização e as ruas sem calçamento e pavimentação.

Por que a cidade está tão quente?

Em reportagem do G1/MA do dia 20 de setembro deste ano, Caxias atingiu no dia anterior a temperatura de 41,1ºC a maior temperatura do país, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). A segunda no ranking foi a cidade de Alto Parnaíba também no Maranhão com 39,6ºC. Entre as gerações mais antigas a opinião é unanime: a cidade nunca esteve tão quente. Por que?

Um dos motivos pode ser observado no péssimo planejamento urbano de Caxias. Bairros criados por áreas de invasão quase sempre aproveitam o solo proibido para construção como proximidade do leito dos rios e em consequência a destruição da mata ciliar. Isso pode ser facilmente observado nas proximidades dos riachos São José e Sanharó, onde estão praticamente desaparecidos. Bairros expandidos sem praças e parques como Vila Lobão, José Castro e João Viana. Espaços na área central antes vazios e arborizados que viraram loteamentos desorganizados. Até áreas verdes como o Parque da Cidade foram loteadas também por invasões e a impermeabilização do solo sem planejamento.

Mas nem tudo é devido a expansão irregular. O mesmo ocorre em áreas planejadas e loteadas. Na ausência de normas urbanísticas como a Taxa de Ocupação que garanta índices de conforto ambiental, casas são construídas com terreno 100% impermeabilizado. Isso impossibilita a penetração da agua da chuva rumo ao lençol freático e o terreno redireciona a radiação solar, aumentando a sensação térmica ao morador. A compensação de uma área antes livre e que agora está totalmente coberta não existe. Temos cada vez mais casas bem menores, sem quintal, sem afastamento e sem arvores. Tanto em áreas de baixa renda quanto de alto padrão.

As calçadas não respeitam normas arquitetônicas e urbanísticas onde se deveria ter hierarquia de acordo com as vias planejadas e projetadas. Os novos loteamentos são entregues sem a mínima condição de se plantar arvores. Temos imensas ruas sem sombras.

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Destino da água em terreno impermeável com e sem dimensionamento

Nas áreas rurais que servem como balneário as famílias urbanas com sítios, como o Ouro e Junco a situação é preocupante. Os riachos que serviam como balneário nas pontes ao longo da MA-349 já não existem.

Este ano parte do riacho do Junco secou. O motivo foi barragens construídas em sítios que construindo piscinas e até canal para irrigar plantação. O Ministério Público e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente foram acionadas e entraram em acordo com os responsáveis pela construção. Mesmo com a destruição das barragens o riacho continua com a agua parada, restando apenas um fio em seu percurso.

Dependemos atualmente da boa vontade do empresário, o loteador de terras, o que geralmente não acontece, pois quanto mais áreas se ocupar e construir mais lucros se terá. Quem perde é a população em geral que não tem a função social da terra garantida.

Precisamos de mais arborização, de mais áreas verdes, precisamos discutir o zoneamento municipal para que se direcione as novas construções de acordo com a necessidade climática de Caxias. Precisamos mapear e fiscalizar os riachos da área rural. A consequência já estamos sofrendo agora com uma cidade cada vez mais quente. Podemos mudar esta situação para que não fique ainda pior.

 Eziquio Barros Neto é arquiteto e urbanista.

Nossa independência é no dia 01º de Agosto

O ato de 07 de setembro de 1822 não surtiu efeito na cidade de Caxias nos dias que se seguiram. Com maioria da classe dominante sendo portuguesa, ainda viveríamos quase um ano sob o domínio do reino de Portugal. Aqui o Major Fidié assentou seu exercito para continuar com a Colônia. Aqui brasileiros vindo do Piauí e Ceará vieram libertar o Maranhão do julgo português. Aqui se travou sangrentas batalhas pela independência, o que não ocorreu no dia 07 de setembro pelo país. Só faríamos parte do Brasil no dia 01 de agosto de 1823, quando os brasileiros entraram na cidade festejando pela antiga Rua do Sol (depois 01º de agosto e hoje rua Alderico Silva).

A nossa verdadeira independência é no dia 01º de agosto. É nesse dia que deveríamos comemorar a independência do Brasil com desfiles cívico-militar. Não hoje.

Texto: Eziquio Barros Neto

Doutor Bento Urbano da Costa

A cidade de Caxias é abençoada por ser uma terra de grandes personalidades nas diversas áreas culturais, profissionais, militares e políticas do Brasil. Imensa é a lista de filhos ilustres que a colocaram para sempre nos livros de história.

Mas Caxias também foi berço de muitos migrantes e imigrantes que por aqui desembarcaram em busca de uma vida melhor. Aqui fizeram fortuna, criaram família e também ajudaram e muito em seu desenvolvimento.

A partir de agora o blog trará a biografia dessas figuras que muito contribuíram para que Caxias se tornasse uma das mais importantes cidades do Maranhão e do Brasil. Começamos pelo médico humanitário Bento Urbano que aqui residiu por muitos anos e deixou seu nome.

Bento Urbano da Costa

Esse maranhense nasceu no dia 07 de junho de 1873. Grande parte de sua família residia em Alcântara, litoral maranhense. É seu irmão o Comendador Mariano Augusto Maia Cerqueira.

Estudou na capital no Liceu Maranhense concluindo os estudos no ano de 1894. Quando jovem ajudou a criar o Grêmio Literário Maranhense, onde chegaram a editar o jornal ‘A Ideia’ e era um de seus redatores. No fim do século XIX vai para a Bahia estudar medicina na Faculdade de Medicina e Farmácia onde conclui o curso no ano de 1901.

Retorna no mesmo ano para São Luís e é imediatamente nomeado como médico interino de Segurança Publica Inspetoria de Higiene do Estado do Maranhão. Recém formado logo começara a ser um grande defensor da saúde pública onde faria diversos discursos sobre a tuberculose na capital maranhense, inclusive no Teatro Municipal. Foi convidado a lecionar no Liceu Maranhense nas cadeiras de História Natural, Física e Química onde também eram professores grandes vultos maranhenses como Palmério Cantanhede e Justo Jansen Ferreira. Em 1902 passou um breve período no Amazonas e no Pará, onde fez parte da Higine em Belém.

Na volta ao Maranhão em 1903 o Dr. Bento Urbano se instala na cidade de Caxias no bairro Ponte. Quando a Peste Bubônica assolava a capital São Luís criando pânico nas cidades maranhenses em 1904, o Dr. Bento Urbano defendia que o trafego da capital até Caxias pelo rio Itapecuru fosse interrompido, pois não existia um local adequado para a quarentena de doentes e a doença corria o risco de se espalhar pelas cidades ribeirinhas. Importante lembrar que a navegação pelo Itapecuru era o único meio de ligação entre Caxias e São Luís. O Dr. Bento Urbano fez ainda diversas palestras no prédio da Câmara Municipal explicando a toda sociedade, que se exprimia para ouvir suas palavras, como evitar e tratar a doença.

O Dr. Bento se dirigia sempre que solicitado do Ponte até o centro da cidade para atender pacientes. Em 1906 ele resolve criar uma clínica na cidade para melhor atendimento. Essa clinica funcionou pelo menos até 1911 na cidade.

O Dr. Bento Urbano era uma figura de erudição que o destacava na sociedade. Em 1906 ele fora iniciado na Loja Maçônica Harmonia Caxiense que reunia naquele momento as figuras mais importantes de Caxias em seu seio. Foi um membro ativo e inclusive representando a Harmonia Caxiense em diversos eventos sociais em São Luís, como na visita do Senador Lauro Sodré (Grão Mestre do Grande Oriente do Brasil) a São Luís em 1911. Foi também um dos responsáveis pela fundação da Loja Maçônica Atalaia Codoense na cidade de Codó em 1910.

Em 1906 na visita do Presidente da República Afonso Pena a Caxias, o Dr. Bento Urbano foi uma das figuras da cidade a lhe dar as boas vindas. No jantar oferecido ao chefe da nação na residência de João da Cruz, o Dr. Bento Urbano fora um dos oradores da mesa oficial onde oferece brinde aos presentes.

No mesmo ano o Dr. Bento Urbano entra para a política. Se candidata a uma cadeira de Deputado para o Congresso do Estado (Deputado Estadual) onde acaba sendo eleito para o pleito 1907/1909. Eram seus amigos de parlamento vários Maçons que mantinha amizade como Ladislau Godofredo Dias Carneiro (Também da Harmonia Caxiense), Alcibíades Aguiar e Silva (Atalaia Codoense), Antônio de Castro Pereira Rego (Renascença Maranhense) e ainda o caxiense José Rego Medeiros e o intelectual Manoel Viriato Correia. No seu período como Deputado foi um grande crítico da inercia do Governo do Estado no tratamento das doenças como a varíola em São Luís. Árduo defensor da saúde pública no Maranhão. Disputou novamente as eleições para Deputado e fora reeleito para o pleito 1910/12.

Em 1911 o Dr. Bento Urbano embarca para Paris onde se especializa em doenças com o a sífilis como o Dr. Jean Alfred Fournier, uma das maiores autoridades no assunto no mundo, onde seu nome está associado a três termos médicos, como a Síndrome de Fournier, Sinal de Fournier e Tíbia de Fournier.

Em 1912 ele já se instala de vez na capital São Luís onde monta um consultório clinico para tratar de pacientes. Assim como em Caxias, Dr. Bento Urbano passa a ser figura frequente na alta sociedade ludovicense sendo sempre convidado a eventos sociais e políticos. Participa ativamente da caridade aos mais necessitados, como ajuda as crianças o que lhe rendeu um convite e fora aceito como Irmão da Santa Casa de Misericórdia em São Luís, fazendo parte de seu quadro social.

Em 1914 foi um dos idealizadores e fundadores da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Maranhão, com objetivo de trabalhar pelo desenvolvimento da medicina e pelos interesses da classe. Foi seu Presidente o médico Oscar Galvão e o Dr. Bento Urbano o seu Orador.

Em São Luís fora ainda medico do Matadouro Modelo, Superintendente e Diretor do Serviço Sanitário, Secretário dos Negócios do Interior, Professor da Escola de Farmácia, Professor de Medicina Legal da Faculdade de Direito do Maranhão, Membro do primeiro corpo docente da Faculdade de Medicina do Maranhão fundada em 1930.

Após a década de 1930, já com seus sessenta anos de idade, continuava trabalhando ativamente pela saúde pública maranhense pelo interior. Foi medico em Coroatá, Codó, Monte Alegre, Axixá e Morros. Em 1944 foi chefe do posto médico na zona do Mearim, residindo na cidade de Pedreiras.

Esse grande medico humanista faleceu na madrugada de 09 de novembro de 1945, deixando viúva e filhos adultos. O Dr. Bento Urbano da Costa merece uma biografia. O povo maranhense deve essa homenagem a esse grande médico maranhense que deu a vida a saúde pública.

Texto e pesquisa: Eziquio Barros Neto