100 Vespasiano – SEM Vespasiano

100 anos de falecimento de Vespasiano

Banner improvisado na praça Vespasiano Ramos no dia do centenário de morte do poeta.

Antônio Gonçalves Dias – Baia de Cumã, litoral maranhense.

Henrique Maximiano Coelho Neto – Rio de Janeiro.

Raimundo Teixeira Mendes (Positivista) – Rio de Janeiro.

Celso Antônio Silveira de Meneses – Rio de Janeiro.

Cesar Augusto Marques – São Luís.

Frederico José Correia – São Luís.

João Mendes de Almeida – São Paulo.

Raimundo Teixeira Mendes (Engenheiro) – São Luís.

Teófilo Odorico Dias de Mesquita – São Paulo.

Antônio Veras de Holanda – Floriano, Piauí.

Joaquim Vespasiano Ramos – Porto Velho, Rondônia.

De alguns dos nomes dos caxienses que dão os alicerces do panteão caxiense, nenhum descansa nas terras sagradas dos Timbiras e Gamelas. Alguns por residirem nas capitais onde exerciam atividades políticas ou profissionais. Outros por mero acaso do destino como Gonçalves Dias e Joaquim Vespasiano Ramos. No caso de nosso homenageado, houve uma real possibilidade de se fazer justiça e trazer os seus restos mortais de volta a seu leito mater.

Hoje dia 26 de dezembro de 2016, completa-se exatos 100 anos de falecimento do poeta Vespasiano Ramos, a qual os intelectuais, poetas e demais caxienses amantes das letras o tanto admiram. Traçamos, pois, a vida de nosso poeta na terra gonçalvina.

Em 1884 Caxias iniciava uma ebulição industrial e cultural. O operariado, a nova classe trabalhadora em Caxias, se dirigia ao bairro Ponte graças a visão dos grandes empreendedores da Companhia Prosperidade Caxiense. Responsável pela ligação daquela área ao centro da cidade com a construção da ponte de madeira e pela instalação das fábricas. A Sociedade Fênix Dramática Caxiense inseria nossa cidade no roteiro dos grandes espetáculos do país.

Foi nesse contexto que no mês de agosto deste ano, no Largo de São Benedito, em uma casinha de Morada Inteira de fachada simples sem revestimento, sem eira e beira, que nascia nosso poeta. Embora de família humilde, residia em área nobre, de frente ao templo religioso. Na infância ali brincou na terra batida debaixo das arvores. Presenciou festejos religiosos como o de São Benedito da janela de sua casa. Para o largo sempre se dirigia após os estudos, após conhecer o primeiro amor, após as bebedeiras. Aqui versou, aqui amou, aqui sonhou.

A cidade que Joaquim viveu na juventude era opulenta. Possuía a primeira estrada de ferro do Estado. Tinha um filho ilustre, Coelho Neto, naquele momento fundador da Academia Brasileira de Letras e que aqui esteve em 1899 visitando sua terra natal, onde fora recebido com as pompas merecidas. Vespasiano nessa ocasião estava prestes a fazer 15 anos de idade. É possível que também tivesse participado das festas ao nosso ‘Príncipe dos Prosadores Brasileiros’.

Ao completar a maioridade foi embora para São Luís e com saudades retornou. Por necessidade foi embora novamente mas dessa vez para bem longe. Foi com a certeza de que em breve voltaria para o seu largo de São Benedito. No dia 11 de janeiro de 1916, partira nosso poeta para São Luís e dali para o Norte do Brasil. Foi a última vez que Ramos estivera em Caxias.

Deixou saudades em nossa Caxias. Seus amigos e admiradores anos depois lhe dariam uma digna homenagem a altura que merecia. O largo em que nascera e que já tinha sido nomeado com o nome de um chefe político maranhense, foi renomeado. Em 23 de julho de 1931, pelo Decreto nº20 a praça passou oficialmente a se chamar Praça Vespasiano Ramos. Em 13 de agosto, dia em que o poeta completaria 47 anos se vivo fosse, o prefeito João Guilherme de Abreu inaugurava a praça toda reformada, em homenagem a este gênio da literatura.

Em 1949, pela Lei nº79 proclamada pelo prefeito Eugenio Barros, se instituía os símbolos de Caxias em sua bandeira. A Lira Dourada simbolizava quatro poetas caxienses, entre eles nosso Quincas.

Aproximava-se o ano de 1984, o ano de centenário de seu nascimento. Por iniciativa do Deputado Estadual João Afonso Barata é aprovada a Lei nº 4.225 de 1980, sancionada pelo Governador João Castelo (seu parente), que autorizava o Executivo a trazer os restos mortais do poeta de volta a Caxias. Muito tempo passou e nada fora feito.

Chegamos a 2016, o ano de centenário de seu falecimento. Era a hora de pôr em pratica o que a Lei determinara a mais de trinta anos. Era a hora de seu repouso eterno estar completo. A hora de corrigir o erro do destino que o deixou em terras desconhecidas. Era a hora de finalmente o caxiense acender a vela em seu túmulo.

A praça foi reformada. Os restos mortais não vieram. Sequer uma placa em seu nome fora assentada. Perdemos essa oportunidade.

No dia 26 de dezembro de 2016, se não fosse atitude de alguns admiradores do poeta que foram a praça lhe prestar homenagens, não haveria absolutamente nada em memória a essa data. Nada foi feito por quem se orgulha de propagar que somos a cidade dos poetas.

Se aqui as gerações de políticos não deram importância, o povo de Porto Velho o recebeu de braços abertos. Rondônia o adotou como seu filho. Seu túmulo, reformado e transformado em Patrimônio daquele povo. Porto Velho está de parabéns.

Se os seus restos mortais não vieram, se a estátua não foi inaugurada no ano de seu centenário, pois que esse ano de 2016 sirva como a data que se início o movimento de correção histórica. Conclamo aos caxienses, façamos a Comissão Pró-Monumento para lutar por esta obra. Abraçamos esse desafio de nós mesmos, o povo, tomar essa atitude em memória a nosso querido Joaquim Vespasiano Ramos, para que na festa de seu bi centenário a sociedade caxiense não tenha novamente que passar por algo semelhante: O CEM anos, SEM a homenagem ao poeta.

Texto: Eziquio Barros Neto

Caxias volta a ter cinema – Parte II

O cinema se estabelece

Passada a fase itinerante do cinema em que as projeções eram espetáculos que serviam para encantar os telespectadores, a sétima arte se instala de vez no Maranhão como um novo tipo de entretenimento. O cinema continuou em salas alugadas de teatros e salões até as firmas cinematográficas possuírem sedes próprias. Em 1909 o Maranhão ganha o seu primeiro cinema o ‘Cinema São Luiz’ nas dependências do Café da Paz, localizado na praça João Lisboa. Embora ainda não tivesse prédio próprio funcionando em um espaço de outro empreendimento, era a primeira vez que o cinema funcionava de forma permanente em um local fixo.

Em Caxias o cinema também iniciou as atividades dentro do teatro. O ‘Phenix’ era o local mais apropriado para a projeção, sendo um ativo local onde recebia peças teatrais e demais eventos sociais além de possuir amplo salão com poltronas confortáveis.

O primeiro cinema a funcionar em Caxias, segundo o historiador Rodrigo Bayma Pereira, é o ‘Cine Odeon’ já em funcionamento em 1918, também nas dependências do Teatro Phenix. Em 1920 ele já estava funcionando em uma casa alugada para suas exibições. Durante os intervalos das apresentações eram comum apresentações e conferencias, como aconteceu no Odeon no mês de abril de 1920 a palestra “Rabo de Saia” do poeta Vicente Alves de Souza, o Galiza.

No mesmo ano em 1920 estava em funcionamento o Royal Cinema, de José Ommati. A empresa fora criada para exibição de filmes e funcionava também no Teatro Phenix. Os ingressos eram vendidos na residência de Dona Balbina Silva, na rua Riachuelo. Em seguida o cinema mudou-se para um imóvel na esquina da Praça da Matriz. Em 1927 o Royal foi comprado por Pedro Costa, onde após passar por reforma passou a chamar-se ‘Cine Jahu’. Esse cinema mudou-se para um casarão na Praça Gonçalves Dias, onde depois foi demolido e em seu lugar construído o Colégio Gonçalves Dias, hoje o prédio do antigo Forum. O mesmo Pedro Costa em 1931 fundou o ‘Cinema Guarany’, voltando a exibir filmes nas dependências do Phenix.

 1 Jornal do Comercio, 1920 – Anuncio de filmes em exibição.

rrrrr Anuncio no Jornal do Comércio de Caxias em 1920 do filme em forma de seriado “The Exploits of Elaine” ou “Os Mistérios de Nova York” de 1914. Sucesso mundial. Ao lado o cartaz original distribuído nos cinemas pelo mundo.

O auge

Os cinemas que se seguiram em Caxias quem nos dá a lista novamente é o historiador Rodrigo Bayma. Na década de 1930 foi fundado o ‘Cine Rex’ na rua Aarão Reis. Em 38 mudou-se para um prédio próprio na rua Afonso Cunha. Era um prédio com instalações de cinemas com sala confortável. O prédio da Aarão Reis em que funcionou o Rex, foi reformado por Valdenor Lobo por volta de 1940 e instalado o ‘Cine Pax’. Cerca de dez anos depois o Pax foi vendido e o nome mudado para ‘Cine Glória’. Não demorou muito e o Gloria mudou para um salão do Palácio do Comércio. De frente ao Glória é fundado o ‘Cine Plaza’, de propriedade de Antônio Pereira Lima. Após a venda do Glória para a firma ‘Caldas e Ferreira’ teve o nome mudado para ‘Cine Alvorada’. O Alvorada vendido mudando o nome para ‘Cine São Luís’.

Na década de 1960 dois cinemas estavam em atividade em Caxias: O ‘Cine Rex’ e o ‘São Luís’. O São Luís de propriedade de José Ferreira apresentada os melhores filmes pois o eu proprietário ia pessoalmente a Recife e Teresina em busca das películas. O Rex de propriedade de Carvalho Neto, o mais antigo, dependia dos filmes enviados por seu fornecedor, o que o deixava em desvantagem nos lançamentos. Em compensação o Rex era o que mais oferecia conforto e qualidade. Porem perdia clientes por falta de atração. O São Luís, sofria com reclamações onde os clientes assobiavam e batiam nas cadeiras em protesto a péssima qualidade de imagem e som e constantemente o proprietário entrava na sala ameaçando expulsar os revoltosos. Na inauguração do Armazém Paraíba ocorrida no dia 30 de julho de 1967, o Rex e o São Luis passaram o dia exibindo filmes de graça a população patrocinados pelos empresários Valdecy e João Claudino, proprietários do Paraíba.

Os caxienses frequentavam o cinema não apenas para assistir filmes, onde muitas vezes o filme em exibição era o de menos. Era um programa familiar, lugar de início de vários namoros e por vezes o único lazer da juventude. As pessoas se organizavam para ir ao cinema, se socializavam nas praças antes e depois das sessões.

 20140713_150153 Rua Aarão Reis. O imóvel de cor amarela onde hoje funciona uma loja de produtos popular, foi onde funcionou os cinemas Rex, Pax e Glória. Infelizmente por falta de normas urbanistas, a poluição visual esconde os seus elementos originais e a sua história.

As últimas décadas

Com o fim do Cine Rex, o prédio foi reformado para abrigar a atual sede do Armazém Paraíba. Existe registro que o Cine Rex também teria funcionado na rua Afonso Pena em 1962.

O Cinema São Luís continuou nas dependências do prédio da Associação Comercial, entre a pizzaria Nostra Pizza e o Excelsior Hotel. Ali foram exibidos muitos filmes infantis como dos Trapalhões nas matinês e a noite os lançamentos para os adultos. Era apenas uma sala e um filme por vez. Não demorou logo passou a exibir apenas filmes de conteúdo adulto o que o levou a encerrar as atividades junto com os vídeo games e fliperamas que existiam no hall. O prédio passou muito tempo desativado, posteriormente servindo como anexo da Nostra Pizza e hoje em dia uma loja de produtos populares.

A decadência dos cinemas de rua nas medias e pequenas cidades logo nos atingiu. Os últimos anos de exibição de filmes em Caxias foram nos anos de 1990. Após o fim do Cine São Luís outro espaço a exibir filmes na cidade foi na sede da Duda Games. Era do mesmo proprietário da locadora de fitas VHS Kyara Vídeo, mas primeiro funcionava apenas como locadora e espaço para jogos eletrônicos. Era uma pequena sala atrás dos vídeos games e fliperamas. Ao contrário dos anteriores onde os filmes eram em películas como todo cinema, esse era de filmes da locadora do proprietário. Muitos filmes eram antigos, a maior parte de artes marciais que tinha uma verdadeira legião de fãs na época em Caxias. Bruce Lee, Jean Claude Van Damme e demais artistas de filmes ‘de luta’ como eram chamados. Assim como o São Luis, o Duda passou a exibir também filmes de conteúdo pornográfico, mas onde os clientes eram boa parte a garotada que frequentava os games. Em seguida assumiu o local outro proprietário de games, agora com o nome Games Fera. Era a mesma proposta do anterior, também com pouca duração.

O último cinema foi uma sala de exibição na rua Aarão Reis em frente à rua que passa por trás da igreja da Matriz. A sala pertencia ao dono da vídeo locadora Fox, daí se chamando ‘Cinema Fox’. Improvisado e de baixo custo teve curto período de funcionamento. Ainda houveram outras tentativas de se inaugurar um cinema em Caxias por empresários de locadoras locais. Uma das ideias era no prédio do antigo Forum que ficara desativado devido a transferência para a Cidade do Judiciário. Mas não saiu do papel. A Academia Caxiense de Letras por volta de 2011 cedeu o seu espaço para o projeto ‘Cine na Terça’. Encabeçado pelo escritor e músico Isaac Souza, exibia filmes clássicos e cult no auditório atraindo jovens do meio literário e cultural.

Agora em 2016 Caxias volta a abrigar uma sala de cinema nas dependências de seu primeiro shopping center, as margens da BR-316. *Hoje em exibição a estreia do filme ‘Star Wars – Rouge One’. Caxias assiste esse filme no mesmo dia em que é lançado mundialmente.

Texto, pesquisa e foto – Eziquio Barros Neto

 *Texto escrito no dia da estreia do filme, porem publicado uma semana depois por ser em duas partes.

Caxias volta a ter cinema – Parte I

A inauguração do Caxias Shopping Center no dia 30 de novembro trouxe para a nossa cidade, além de grandes marcas comerciais, um cinema. Depois de anos sem atração de filmes nas telas, a nossa cidade voltou a ter esse lazer. A empresa Multicine chega a Caxias com cinco salas em 2D e 3D com filmes em cartaz em todos as salas nacionais. Os primeiros filmes em cartaz são: ‘Dr. Estranho’, ‘Animais fantásticos e onde habitam’, ‘Jack Reacher: Sem Retorno’, Trolls, ‘Anjos da Noite – Guerras de Sangue’, ‘Masha e o Urso’, ‘A Chegada’ e o nacional ‘O Shaolin do Sertão’. O cinema não deixa nada a desejar com os de Teresina, onde os caxienses tinham de se dirigir para assistir as novidades.

Várias gerações de caxienses passaram infância e juventude nos cinemas da cidade. Das matinês para crianças a romances para casais de namorados, o cinema era atração garantida por vários anos. Até chegar a decadência e o fim de cinemas nas pequenas, médias e grandes cidades. A era do cinema também deixou a sua marca em Caxias.

Para que não ficasse muito longo o texto foi dividido em duas partes. Nesse primeiro texto irei tratar dos primórdios da história do cinema no Maranhão até chegar em Caxias com a exibição do primeiro filme. Na segunda parte o primeiro cinema e todos que por aqui existiram, do auge a decadência e os últimos filmes a serem exibidos ao público.

As primeiras exibições de imagens em movimentos

A primeira exibição cinematografia no Brasil foi no Rio de Janeiro em 1896. Era “Saída dos Trabalhadores da Fábrica Lumière“, considerado a primeira projeção cinematográfica da história, feito um ano antes. Eram imagens de trabalhadores saindo da fábrica de sua família em Paris feita pelos inventores do cinema os irmãos Lumière. Mas antes que o Cinematógrafo (aparelho considerado o marco inicial do cinema) chegasse ao Maranhão, aparelhos mais primitivos que projetavam imagens em movimento como o Pantoscópio e o Bioscópio aqui desembarcaram atraindo admiração da sociedade ludovicense.

Esses aparelhos projetavam uma série de fotografias que davam a impressão de movimento. Algumas eram pintadas a mão, o que garantia uma melhor distinção das imagens. Em 1897 o “Pantoscópio Automático” é exibido pela primeira vez em São Luiz no Largo do Carmo. O Pantoscópio atraiu admiração e medo na sociedade, pois alguns consideravam a invenção algo sobrenatural. Depois de ser exibido com sucesso no Pará e em São Luís, o aparelho saiu para exibição em outras localidades.

Foi esse pantoscópio que chegou em Caxias no dia 24 de fevereiro de 1898. Desembarcando no porto pelo navio Barão de Grajaú, o empresário trouxe junto com o pantoscópio, um fonógrafo que prometia sons mais nítidos, ouvidos a longa distância. O anuncio no Jornal de Caxias já deixava claro a novidade: “Os quadros são de tal perfeição que o espectador supõe estar diante de pessoa viva”. A exibição se deu no mesmo dia de sua chegada em um sobrado no largo de São Benedito.

O filme exibido é “A Vida de Cristo”, com quadros de toda a vida de Jesus, do nascimento a sua ascensão. Contou ainda com fotografias de paisagens de vários países da Europa e da Ásia. A entrada custava 500 reis. A exibição fez tanto sucesso que a pedido de várias famílias que não tiveram oportunidade de assistir, o aparelho fez outras datas de exibição.

Embora o pantoscópio reproduzisse imagens em movimentos se assemelhando a um filme, o aparelho não é considerado ainda como a criação do cinema. O primeiro filme só viria com a chegada do aparelho chamado Cinematógrafo no início do século XX. Cinematógrafo era um aparelho inventado em 1892 que conseguia reproduzir a luz das imagens em tela, em quadros por segundos. Esse aparelho se destaca dos demais pois diferente dos outros que o telespectador tinha que olhar por uma câmara escura a imagem, o cinematografo projetava a imagem o que deu início ao cinema.

cinematografo

Cinematógrafo

 O primeiro filme

Segundo o professor Francisco Caldas Medeiros (1892-1970), a primeira exibição cinematográfica em Caxias foi “Os funerais do Rei Humberto da Itália” nas dependências do Teatro Phenix em 1901. Seria de uma empresa alemã que exibia filmes mudos na capital e aqui chegou.

Existe um equívoco quanto a data relatada pelo historiador caxiense. Essa exibição cinematografia em Caxias ocorreu na verdade um ano depois. Bernard Bluhm era um comerciante alemão que residia em São Luís. Proprietário da firma “Bernard Bluhm & C”, que tinha a Chapelaria Alemã e que era situada na rua do Sol. Também era influente nos meios sociais ludovicense. Foi ele quem criou o ‘Cinematógrafo Alemão’, com um aparelho que passou a reproduzir filmes em São Luís. A aparelhagem e os filmes deve ter adquiridos na Alemanha, quando lá esteve em 1898.

Na capital existiam mais de dez empresas desse tipo e Bernard Bluhm acabou se desentendo com uma delas, a Bioscópio Inglês. A briga acabou desgastando sua imagem na sociedade ludovicense e para não ver o seu empreendimento naufragar teve a ideia de levar o cinema para o interior no ano de 1902. É ai que chega o primeiro filme em Caxias.  A exibição ocorreu na noite dos dias 30 e 31 do mês de agosto e continuou com várias sessões em setembro dentro do Phenix. Houve bom público nos dias de exibição arrancando aplausos da plateia.

Os funerais do Rei Humberto da Itália”, assim como as demais películas da época eram registros de cenas do cotidiano em grandes cidades ou eventos com pouco mais de um minuto de duração. Não era um filme completo e sim vários pequenos rodos de fitas com cenas do funeral do rei. Como o Cinematógrafo Alemão exibia filmes na capital a um bom tempo, provavelmente outros filmes também foram exibidos junto com o funeral do Rei.

3Noticia no Jornal de Caxias – setembro de 1902 e jornal Diário do Maranhão – São Luis, 1902. Noticias da empresa de Bernard Bluhm em Caxias onde teria acontecido a primeira exibição cinematográfica na cidade.

 

Na próxima semana a segunda parte do texto sobre os primeiros cinemas na cidade e o seu período de decadência.

Texto e pesquisa: Eziquio Barros Neto.

152 anos de falecimento de Gonçalves Dias

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Jornal do Comercio – Caxias, 03 de novembro de 1915 em homenagem ao poeta.

No dia 03 de novembro de 1864 a cidade de Caxias, o Maranhão e o Brasil perderiam um dos mais idolatrados poetas da literatura brasileira: Antônio Gonçalves Dias.

A última vez que o poeta estivera em Caxias foi no final de 1861. Por aqui passou pouco mais de uma semana acompanhado de amigos e familiares onde em seguida partiria para o Rio de Janeiro. Em abril do ano seguinte embarca desejando regressar ao Maranhão, mas ao chegar em Recife é aconselhado a imediatamente seguir a Europa tratar de sua saúde, pois senão morreria. Dali embarcou para Marselha, na França. Foi a última vez que o poeta pisara em solo brasileiro.

A melhora no velho mundo não veio e, consciente de que sua situação só piorava, decidiu voltar a sua terra natal e ali ao lado de amigos e familiares viver seus últimos dias, ou então esperar uma intervenção divina para que sua saúde melhorasse respirando os ares que tanto amava.

No porto de Havre na França, embarca no Ville de Boulogne, um antigo veleiro movido a vapor com tripulação estimada em cerca de 12 marinheiros, um capitão e nosso poeta como único passageiro. No embarque dois amigos foram lhe desejar boa viagem e passar algumas instruções ao capitão do Ville. O diplomata brasileiro Vasconcelos Drummond deu instruções sobre os cuidados que nosso poeta necessitava e ainda mais: sabendo da gravidade de seu estado de saúde recomendou que caso falecesse a bordo, que seu corpo fosse preservado a todo custo para ser enterrado em São Luís, prometendo indenizar as despesas. A viagem atravessando o oceano atlântico até São Luís duraria cerca de cinquenta e três dias.

Durante quase todo esse tempo nosso poeta ficou em seu camarote acamado. Sem poder se locomover não tinha como acompanhante um amigo ou parente para lhe ajudar. Dependia da boa vontade da tripulação do Ville que o ajudara nas necessidades básicas. Os dias foram longos. Na última semana de viagem, Gonçalves Dias nada conseguia comer, apenas tomando agua com açúcar.

Nosso poeta entrara nas aguas brasileiras. Finalmente estava na terra mãe. Posso imaginar a expectativa do poeta ao ser avisado por algum marinheiro que já estavam em aguas maranhenses. Deve ter feito um enorme esforço, sem sucesso, para espiar pela janela de sua cabine as terras maranhense que já eram visíveis. Teria ele tentado olhar a índia Marabá lhe acenando? ‘–Bem vindo poeta, ouça o canto do sabiá’. Nosso poeta insistiu para ser levado até o tombadilho do navio para ver sua terra que tanto aguardava. A emoção foi em demasia que nosso poeta desmaiou. Fraco, quase um moribundo, foi levado nos braços de volta a cama onde em poucos dias desembarcaria. Foi a última vez que viu o Maranhão.

Na noite de 03 de novembro as aguas estavam tranquilas, sem nevoeiro e nem chuva e nosso poeta pouco mais de 50 quilômetros de distância do porto de São Luís. Mas a noite não era possível visualizar os bancos de areia e rochas nas aguas da região do Baixos dos Atins, na Baia do Cumã, próxima ao município de Guimarães. Região conhecida como um cemitério de embarcações. O Ville acerta um desses bancos e o navio encalha. No impacto, o navio racha e toda tripulação consegue sair do navio a nado até acharem a praia. Menos nosso poeta. A viagem para ele durou 49 dias. Seu sonho de ser enterrado na sua queria Caxias não se realizou. Quis o destino que fosse lhe dado o mar como seu túmulo eterno.

O Brasil entrara em verdadeiro luto.

Uma carta enviada ao jornal maranhense O Paiz descreve a emoção da sociedade caxiense: “A morte de Gonçalves Dias causou aqui, seu berço natal, a impressão mais dolorosa; parecia que cada um tinha perdido uma pessoa de sua família. Não havendo outro remédio senão resignarmos com a vontade suprema fomos todos, caxienses e não caxienses, implorar a Deus por aquele que soube elevar tão alto esta terra… Mas de tudo o que mais tem impressionado aos amigos do poeta é a triste posição que fica reduzida a sua pobre mãe, pois ele era o seu arrimo, e quem lhe dava uma mesada para passar os seus cansados dias”.

No dia 17 de novembro foi realizada uma missa em sua memória na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios celebrada pelo padre J. Guimarães. Na igreja estavam presentes sua mãe, suas irmãs, amigos e vários admiradores. O sermão do padre causou emoção na missa levando muitos as lágrimas.

Sua mãe, Dona Vicência Mendes Ferreira passou o resto de sua vida em Caxias residindo com suas filhas, irmãs do poeta, Vicência e Carlota em uma casinha na Travessa das Violas até falecer. Foi enterrada no Cemitério dos Remédios e seu túmulo se perdeu no tempo.

O Rio de Janeiro logo mudara a antiga Rua dos Latoeiros (Onde ficava o prédio em que o poeta escrevera Segundos Cantos) para Rua Gonçalves Dias. São Luís mudou o Largo dos Remédios para Praça Gonçalves Dias. E assim em várias cidades pelo Brasil.

Em sua terra natal o antigo Largo do Poço ganhou o nome do seu filho mais ilustre. A estátua do poeta que a sociedade se mobilizou para erguer, só veio mais de cinquenta anos depois, na década de 1920 em forma de busto. A Rua do Cisco que o poeta passara sua infância e conheceu as letras, mudou várias vezes de nome, menos o seu. O sobrado em que de sua janela ouvia de longe o canto dos sabiás foi demolido. Queira Deus que um dia alguém não tenha a infeliz ideia de mudar o nome da Praça Gonçalves Dias.

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1 – Jornal O Paiz (São Luis -MA) de 05 de novembro de 1864, dois dias depois do naufrágio. 2 – Jornal Constitucional (São Luis -MA) de 16 de novembro de 1864 – A suspeita pela culpa da morte do poeta cai sobre os tripulantes do navio que o teriam abandonado. 3 – Jornal A Fé (Maranhão) de 16 de novembro de 1864 lamenta a morte do poeta.

Texto – Eziquio Barros Neto