Paisagismo Ameaçado

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Quem gosta de registrar imagens de nossa cidade aproveite para ir agora ao pé do Morro do Alecrim e tirar aquela foto da vista do centro com a Igreja da Matriz em destaque, pois essa paisagem pode estar com os dias contados. É que um prédio pode ser erguido na rua 1º de Agosto com pavimentos superiores a dois andares, o que passará a integrar de vez o paisagismo de Caxias e esconder a parte de trás da igreja.

O Morro do Alecrim nos proporciona uma vista panorâmica de boa parte da extensão de nossa área urbana e rural. O aglomerado urbano formado as margens do rio Itapecuru, que se expandiu onde hoje é o centro, criou um traçado irregular por onde foram se estabelecendo nossos antepassados. As casas de taipa foram substituídas pelas grossas paredes de pedra com seus telhados coloniais de barro. As Igrejas levantadas acima desses telhados criou a imagem de uma cidade religiosa em que a sociedade se desenvolvia em seu entorno. No fim do século XIX, a chaminé da fábrica manufatora estabeleceu de vez o domínio da indústria têxtil no comercio, definindo então o símbolo da cidade. E em 1990 toda essa conjuntura foi tombada como interesse da sociedade.

O Decreto que delimitou o centro histórico de nossa cidade, definiu além de seus prédios ricos em arquitetura do século XIX e início do século XX, os seus monumentos imponentes, tombou também o paisagismo do centro. Engana-se quem acha que Paisagismo se resume a um ambiente com arborização. Paisagismo é o trabalho do espaço urbano, é projetar um sistema harmonizo entre lazer e conforto.

A Carta de Quito (uma das Cartas Patrimoniais que servem como normas de preservação em áreas históricas), escrita em 1967 pela Organização dos Estados Americanos considera que: “A ideia do espaço é inseparável do conceito do monumento e, portanto, a tutela do Estado pode e deve se estender ao contexto urbano, ao ambiente natural que o emoldura e aos bens culturais que encerra.”

O ambiente e seus componentes, neste caso a geografia e a distribuição urbanística de imóveis como as igrejas e a torre do Centro de Cultura, definem a identidade de nossa arquitetura. São bens adotados como símbolo representativo de nossa cultura. O que se tornou os nossos cartões postais.

Desafios da verticalização do centro

No início deste século, com a volta do crescimento econômico em nossa cidade, o setor imobiliário teve de se renovar e expandir. A necessidade crescente de desenvolvimento e modernidade atingiu em cheio a área tombada como patrimônio. Se até o ano de 2000, o centro de nossa cidade contava com apenas três imóveis com mais de dois pavimentos, em 2015 só na Rua do Comercio esse número já é superado.

Além do problema paisagístico, onde poderão se criar verdadeiros paredões, o crescimento vertical influenciará diretamente no fluxo de circulação de veículos no seu entorno, gerando mais necessidade de estacionamentos e consequentemente gerando engarrafamentos.

Mas a cidade precisa crescer e se desenvolver. O tombamento não pode ser um empecilho ao desenvolvimento econômico e nem esse desenvolvimento deve passar por cima de nossa história impondo a importância financeira acima dos interesses sociais. Caxias precisa estabelecer parâmetros na área urbana para a construção civil, garantindo ao comerciante seu retorno financeiro e garantindo a harmonia urbanística.

A verticalização dos imóveis não é um problema. A falta de normatização para sua verticalização sim. Um estudo aprofundado da área tombada, as vias em que permitem sua verticalização desde que tenham afastamentos evitando imóveis geminados, verticalização garantindo o espaço para veículos, verticalização das vias centrais onde não se “escondem” a paisagem, etc… São normas fundamentais para garantir a preservação da área paisagística.

Toda atenção em se preservar os prédios históricos deve se manter também para nossa área paisagística. A vista do Morro do Alecrim também é um patrimônio. É o nosso patrimônio. Se o prédio for construído, perderemos para sempre a vista da Igreja da Matriz. E em breve, outros monumentos, como a torre do Centro de Cultura correm o mesmo risco.

Deixo aqui um link para quem quiser se estender no assunto. É o artigo “Cidades Brasileiras: A pior verticalização do mundo” do arquiteto e urbanista Anthony Ling.

Eziquio Barros Neto é arquiteto e urbanista. Atualmente preside o Conselho Municipal da Cidade de Caxias.

Paris e Madrid vão banir carros em seus centros – O que temos com isso?

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No final do ano passado noticiei aqui no blog, e que foi veiculado também na coluna de terça-feira do Caxias em Off no Jornal Pequeno, que a cidade de Helsinki, capital da Finlândia, planejava abolir o uso do carro dando novas alternativas para seu transporte por toda a cidade. Agora são as capitais Paris e Madrid que vão banir os carros em seu centro.

Em Madrid o uso do carro começa a ser proibido este mês. É uma estratégia do Plano de Mobilidade de Madrid que pretende diminuir a circulação de um terço de carros em suas ruas do centro.

Na capital francesa, a ideia é implementar o sistema de transporte integrado (bike e transporte coletivo) nos fins de semana, até que seja permanente. Atualmente, 60% dos parisienses não possuem automóveis. Em ambas as cidades o uso do carro está restrito apenas a moradores dessas áreas e veículos de cargas para abastecimento do comercio. Quem pretende circular pela área central deve usar moto, taxi, bicicleta ou algum meio de transporte urbano.

A mobilidade urbana cada vez mais incentivada nos grandes centros, tinha como objetivo desafogar o imenso tráfego formado em suas ruas. Hoje, a preocupação vai além de estacionamentos e engarrafamentos. A principal preocupação em Paris é a poluição. A prefeitura pretende disponibilizar a sua população carros elétricos gratuitos de uso exclusivo no centro da cidade. Outro ponto é a saúde de seus habitantes. Somado com a diminuição da poluição, o exercício praticado pelo uso de bicicleta, ou até mesmo a caminhada pelos pontos de transporte público, dá uma melhor qualidade de vida a seus habitantes.

As experiências por qual as grandes cidades passaram ao enfrentarem seus males no século XX, como o sistema de transporte, devem servir de alerta aos demais centros urbanos. As pequenas e médias cidades brasileiras tiveram um crescimento em seu nível econômico e populacional, se assemelhando em muitos aspectos das cidades metropolitanas. Embora pareça positivo, é o contrário, pois as pequenas cidades não tem uma infraestrutura capaz de resolver essas novas questões.

Se faz necessário um estudo e planejamento para que no futuro não tenhamos que aprovar leis banindo carros de nosso centro apenas para evitar que a cidade pare.

Eziquio Barros Neto – É arquiteto/urbanista e caxiense.

Cadê meu carnaval?

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Lista de músicas que irão bombar no carnaval desse ano segundo a Rádio 
Uol: os funks “Parara Ti Bum" e "Hoje”, o arrocha ostentação “Gordinho
Gostoso” e as músicas sertanejas “Seu Bombeiro” e “Bobeia pra ver”.

Com a proximidade do carnaval são anunciadas as previas para colocar a cidade no clima: show com bandas de forró e sertanejo. Em uma festa com trio e bloco no Morro do Alecrim, pausa na folia para diversificar: músicas de forró e funk. Para o carnaval as músicas que irão bombar nos carros de som já estão na boca do povo: bandas de forró e sertanejo. O carnaval como festa tradicional acabou e se transformou em apenas um evento comum?

Foi-se o tempo que todos se preparavam para pular o carnaval. Há um tempo atrás, o carnaval era a maior festa do ano. Oportunidade de colocar roupa aquela especial para a festa, comprar materiais de brincadeiras com amigos, e curtir estilos musicais próprios para o evento. Tudo isso mudou.

Está cada vez mais comum sair para pular carnaval e no meio da festa tocar alguma música do momento: sertaneja, forró ou funk. Mas ela não vem só, vem em sequência. Em pouco tempo o carro de som já está tomado pelo estilo alheio ao evento. Mas engana-se quem acha que é multiculturalismo. O que acontece não é uma adaptação de ritmos musicais. É a completa tomada do estilo.

Não me refiro ao quesito literário das letras atuais como “melô da muriçoca” ou “lepo lepo” da vida. Essas músicas chicletes são de cunho popular e estão inseridas no contexto do carnaval. Quanto a isso nenhum problema. O perigo é que estamos presenciando cada vez mais a invasão de ritmos diferentes do folclore carnavalesco, como sertanejo, funk e forró.

Essa invasão musical vem do afastamento cada vez maior da cultura maranhense. O axé-music se impôs como padrão de carnaval desde os anos 90. Por aqui sempre se privilegiava o carnaval em clubes privados deixando a revelia a festa popular. Sem o incentivo a blocos tradicionais, festas nas ruas e bandas locais, assistimos passíveis a essa transformação baiana. Agora quem passa por um momento de decadência é o axé-music sofrendo cada vez mais influencias do funk e arrocha. A atração principal para o carnaval baiano desse ano é o bloco do Gustavo Lima e outro da dupla Jorge & Mateus. E como nós, maranhenses, que aprendemos a ter esse estilo como base de carnaval, também sofremos. É nesse vácuo cultural que são preenchidos com o sertanejo e forró.

Se já era difícil criar ou manter bandas com metais, tambores e outros instrumentos carnavalescos e ceder espaço para sua divulgação, imagine agora com o novo fenômeno nas festas: o paredão de som. Um aparelhamento eletrônico estupidamente grande adaptado no automóvel com o único intuito de extrapolar os limites da emissão de som. Na mira da Polícia devido ao incomodo cada vez maior por onde passa na rua, os ‘paredões’ agora viraram atrações em casas de show tomando o espaço de bandas em início de carreira. O dono do bar lucra mais, pois tem um ‘show’ sem pagar muito por banda. Os ‘paredões’ agora viraram atrações em previas de carnaval… tocando sertanejo, forró e funk.

Não existe oportunidade para bandas novas. Não existe espaço para quem quer tocar o carnaval. No máximo, se toca alguma marchinha mas só pra lembrar o por que está ali.

Aquela fantasia, maisena, confetes e serpentinas viraram coisa do passado. Pierrô, Arlequim e Columbina viraram peça de museu. O carnaval como festa popular se tornou irrelevante. A moda mesmo é se preparar para ir a ‘balada’, pois carnaval chegou.

Eziquio Barros Neto

Uma viagem de São Luís a Caxias no início do século XX

Há quem reclame hoje do tempo que se leva para chegar a São Luís. Em carro próprio a média é de cinco a seis horas. Esse tempo já foi menor, mas devido ao grande fluxo de veículos dos últimos tempos e ainda somando com as obras de melhorias na BR-316, pode-se demorar até mais que isso. Vida difícil? Imagine então no início do século XX onde o único meio de transporte para chegar a capital era pelo rio Itapecuru. A viagem poderia demorar até mais de uma semana.

Em 1904 o Dr. Araújo Costa, advogado e político residente em São Luís, descreveu sua viagem de São Luís com destino a Teresina. Seu relato nos dá a ideia de como era uma viagem naquela época. Nos mostra a importância que o Itapecuru tinha ao longo de sua extensão para essas localidades.

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São Luis, Cais da Sagração no inicio do século XX. Acima a esquerda o
Palácio dos Leões, sede do Governo Estadual. O cais foi aterrado
para a construção da Av. Vitorino Freire.

Sua epopeia começa no dia 17 de julho de 1904. O porto de embarque para a navegação fluvial em São Luís ficava no Cais da Sagração, próximo ao Palácio do Governo. A ladeira existente hoje, que dá acesso a praça Pedro II, se estendia até o Cais. Era por esta rampa que se tinha acesso aos barcos para embarque ou desembarque. Era tradição os amigos e parentes acompanharem o viajante até a “rampa do Palácio” para se despedirem e em alguns casos fazia-se discursos em sua homenagem, mesmo se a viagem fosse breve. Com o Dr. Araújo não foi diferente. As 20:00 horas ele embarcou a bordo do vapor ‘Carlos Coelho’ acompanhado de amigos, onde recebeu desde desejos de boa viagem a discursos emocionantes. A meia noite zarpava pelas aguas salgadas da Bacia de São Marcos rumo ao Itapecuru.

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Típico navio a vapor nas aguas maranhenses.

O navio a vapor era o transporte comum na época. Sem muito luxo e quartos individuais. Camarotes, como eram chamados os quartos, apenas para os funcionários e o capitão. Todos dormiam em redes. Alguns mudavam constantemente de lugar, pois o vai e vem do navio fazia com que se molhassem ou fossem atingidos por galhos de arvores. Os passageiros se dividiam com os diversos tipos de mercadorias transportadas, inclusive animais. Nessa viagem em particular, o Dr. Araújo conta que no vapor estava sendo transportado seis vacas do Coronel Luiz Rego, importante comerciante de Oeiras, com destino a sua cidade no Piaui.

No dia seguinte as sete horas da manhã todos tomavam café a bordo do navio. Graças as vacas do Coronel piauiense, o leite foi abundante nessa refeição matutina. As nove horas o vapor parava na vila de Rosário. Pausa de uma hora para embarque de novos passageiros e mercadorias e desembarque. Tempo suficiente para uma caminhada pela vila para encontrar velhos amigos. Essas paradas eram importantes para adquirir mantimentos durante a viagem, como fumo e bebidas. As 11:00 horas o vapor rumava com destino ao rio Itapecuru. A meia noite, nas proximidades da cidade de Itapecuru, o vapor encalha. Contratempo normal naquela época.

Na madrugada do dia 19, desembarcam na cidade. Tempo para uma bebida, mas devido a hora avançada os passageiros não encontram nenhum estabelecimento aberto em Itapecuru. Pelo fim do dia o vapor chegava a cidade de Cantanhede. Assim como é possível observar hoje o forte comercio nas cidades a beira das rodovias, no início do século XX, o transporte fluvial trazia lucro das as cidades ribeirinhas. As estruturas dos comércios eram melhores do que as dos centros em algumas cidades. Em Cantanhede as únicas construções em telha eram os comércios a beira do rio. As demais construções da cidade todas de palha.

Seguia o navio a vapor pelas aguas do rio Itapecuru. Na madrugada do dia 21 de julho o vapor chegava a cidade de Coroatá, encalhando mais uma vez. Mais uma oportunidade para um passeio, compras de mantimentos e enviar mensagens pelo telégrafo. Já pela meia noite do dia 22, o vapor ancorava no porto de Codó. Parada na cidade até clarear o dia e pegar novos passageiros.

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Porto de Codó em 1903.

Dia 23 de julho. No dia seguinte pela manhã, novo passeio pela cidade. Codó era uma das grandes cidades as margens do Itapecuru com casas bem construídas e comercio pungente. Possuía imprensa e uma fábrica de tecidos. Assim como os demais locais de paradas, nosso narrador teve tempo de visitar amigos e ainda almoçar na casa de um deles. Ao meio dia o navio apitava chamando todos para o embarque. Em algumas horas depois o navio zarpava para seu destino final, Caxias.

Além dos portos das cidades onde se parava para o embarque e desembarque e as vezes que encalhava, o navio parava em locais diversos para receber a lenha, onde se demorava cerca de uma hora. Essa parada improvisada e de mesma duração das demais irritava os passageiros. Durante a viagem para se passar o tempo, alguns passageiros praticavam tiro ao alvo, geralmente nos bichos que apareciam no caminho. No fim da viagem os amigos totalizavam quantos pássaros, jacarés e camaleões tinham alvejado.

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Porto de Caxias em 1903. 

As oito horas da noite do dia 25 de julho o vapor apitava avisando estar próximo de Caxias. Era o tempo para arrumar as malas e preparar as mercadorias para o desembarque. Depois das 21:00 horas o vapor finalmente chegava ao porto de Caxias. Oito dias depois de embarcar em São Luís, finalmente o navio chegava ao destino final. A viagem do Dr. Araújo Costa continuaria agora por trem na recente construída estrada de ferro até Flores, atual Timon, onde atravessaria o rio Parnaíba para ser recebido por amigos em Teresina. O Dr. Araújo ainda ficaria alguns dias em Caxias onde tomaria banho no riacho do Ponte e se apaixonaria pela cidade.

Em 1906, dois anos depois dessa viagem descrita pelo Dr. Araújo Costa, chegava a Caxias o Dr. Afonso Pena, então recém eleito Presidente do Brasil. Seu percurso até Caxias pelo Itapecuru trazia relatos de uma viagem cansativa e perigosa, devido a diminuição cada vez maior do volume do rio Itapecuru. O tempo de viagem aumentava a cada ano. Diz a lenda que foi devido a essa viagem que o Presidente Afonso Pena, que constatou pessoalmente as dificuldades do transporte, ordenou a construção da Estrada de Ferro entre Caxias e São Luís.

Embora a construção da estrada começasse no ano seguinte, os passageiros e mercadorias com destino à capital, ainda demorariam cerca de duas décadas usando o rio Itapecuru como transporte. As obras só terminariam em 1921. A partir daí o Itapecuru perderia sua função como principal meio de transporte entre a capital do Estado.

Eziquio Barros Neto

Suástica nazista em anuncio de jornal caxiense

1936 - Jornal Cruzeiro - Ed agosto 2

Um fato curioso nos jornais na década de 1930 em Caxias. A Empresa de Navegação São Luis, de propriedade de Aracaty Campos trazia em seu anuncio uma suástica nazista.

Naquela época, embora a Alemanha já estivesse nas garras da ditadura do Partido Nazista, por aqui não se tinha conhecimento das atrocidades de Hitler e ainda influenciava movimentos políticos. O Integralismo tinha forte influencia no governo de Getúlio Vargas e tinha inclusive uma sede em Caxias, na praça Gonçalves Dias, onde depois foi construido o prédio do Fórum. O jornal caxiense ‘O Cruzeiro’, ligado a igreja católica que defendia ideias conservadores, mantinha uma coluna do Integralismo em defesa da tradição contra o comunismo.