200 anos da igreja dos Remédios

Imagem

IMG_20171020_102922_238

O português residente em Caxias José Antônio de Oliveira enviou um requerimento ao bispado do Maranhão, solicitando licença para erguer uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, padroeira do comércio. A autorização foi concedida pelo vigário capitular Dr. João de Bastos Oliveira, no dia 20 de outubro de 1817. A partir desta data, devotos e comerciantes passaram a planejar sua construção as margens do então Morro das Tabocas, onde foi construído a capela dedicada a santa.

Em 1823 quando o Major Fidié se instalou no alto do Morro onde pretendia manter o regime fiel a Portugal, a Capela dos Remédios serviu de local para a Câmara Municipal se reunir em sessões, onde no dia 31 de junho daquele ano os vereadores resolveram aderir a Independência. Poucos anos depois durante a Balaiada, a capela serviu como deposito de pólvora e armamentos pelos que defendiam a cidade. Tomada pelos balaios, a capela foi parcialmente destruída.

Em 1846 o engenheiro caxiense João Nunes Campos, formado em Paris, é contratado para a sua reforma. A fachada foi alterada, construída duas torres e ampliada a capela-mor. Em 1867 foi instalado um relógio de bronze vindo da Europa, onde até hoje dá as horas do dia a dia.

Em 1939 com a criação da Diocese de Caxias, a igreja é elevada a Catedral do Bispado.

Hoje, 20 de outubro de 2017, se faz duzentos anos de história da igreja de Nossa Senhora dos Remédios.

Texto: Eziquio Barros Neto

Anúncios

145 anos de Elpídio Pereira

Elpidio Pereira

Considerado o maior compositor maranhense, Elpidio de Brito Pereira nasceu em Caxias no dia 16 de outubro de 1872.

Em sua terra natal aprendeu musica com o lendário maestro Antônio Carimã, onde aqui compôs diversas valsas, polcas e marchas. Partiu para a França onde estudou no Conservatório de Paris, de Antoine Taudou e posteriormente com Paul Vidal.

Apresentou-se por todo o Brasil e alguns países com sua vasta obra, sempre reverenciado por seu talento.

É o responsável pela composição do Hino Caxiense, com letra de Teodoro Ribeiro Junior, aprovado pela Câmara Municipal para ser cantado nas escolas em 1909.

Aposentou-se como funcionário do corpo diplomático brasileiro em Paris.

Faleceu no Rio de Janeiro em 1961.

A terceira “guerra” do Alecrim

 

“Ímpios sem crença, e precisando tê-la,
Assentastes um ídolo doirado
Em pedestal de movediça areia;
Uma estátua incensastes  […]
Da política, sórdida manceba “

(Gonçalves Dias, “À Desordem de Caxias”, IV,
in Poesia Completa e Prosa Escolhida, p. 551,
Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959)

 

 

E eis que lá no alto do Morro trava-se nova batalha
— não é mais Alecrim, Duque, nem é contra Fidié:
é luta por causa histórica, onde a verdade assoalha
para o Morro não deixar de ser a Memória que é.

Esse Morro onde habita a História sem fim
e também onde o poeta sua musa canta
pode não mais ser nosso Morro do Alecrim
para ser  — e muito mais —  “o morro da santa”.

Querem (im)por uma estátua no alto do Morro do Alecrim,
onde a escultura é desnecessária, quiçá conflituosa.
Há opções de valia   — entre elas o Morro do Barata, sim,
onde, com Fé, renderemos graças à Maria Virtuosa.

Filhos da terra que dizem respeitar a História,
detentores transitivos do volátil Poder,
abusam da condição, desrespeitam a Memória,
louvam a si mesmos por trás da Santa enaltecer.

Estátua, substantivo sem vida nem rima.
Colocá-la bem no Alecrim é turbação.
À essa obra no alto do Morro, lá em cima,
a Santa pede e quer contrição, oração.

Pois é no interior de cada um que se constrói a devoção
e se a confirma na Fé, no Trabalho, no Amor, na luta contra o Mal,
com decência suprindo o povo carente não só de fé, mas de pão
acompanhado de boas doses de ética, fraternidade, moral.

O próprio Deus escolheu o íntimo do ser humano como templo
quando poderia, fácil, por outros meios fazer-se representar.
E certos humanos, incrédulos, desapegados desse exemplo,
o que fazem para a Deus  — na verdade, a si mesmos, ímpios —  louvar?

Em sítio histórico de Caxias quer-se erguer estátua religiosa;
fazer estátua não só porque os feitores tenham fé, convicção ou crença:
quer-se fazer estátua porque estão, breves, no Poder – coisa perigosa –,
senão teriam construído com humildade, sem alarde ou desavença.

Se têm contas a prestar com a Santa,
se co’ ela têm promessas a pagar,
por que, humildes, como quem ora e canta,
não fazem a estátua em outro lugar?

Digam: Por que foram mexer logo com a Virgem Santa?
Por que assumiu a obra e depois sumiu o Público Poder?
Porque quem tem fé sabe que à Fé incomoda e espanta
o fazer questão de anunciar ao mundo o seu fazer.

Receberam uma dádiva  —  dinheiro, poder, vitória, eleição —
e, cumpridores, querem agradecer com uma o que a outra mão pediu?
Então, munam-se, assim, de reserva, recato, humildade, contrição,
e não se preocupem se todo mundo no mundo todo vê, ou viu.

Pague-se sua promessa sem excessos, ou soberbia, com discrição,
— pois santo que é santo não precisa de alto-falante para sê-lo.
A Santa, sobretudo porque virginal, materna, estenderá a mão
e grata ficará pela prudência, contenção, amor, fé e zelo.

Basta de revolverem-se as pedras do Morro e sua memória;
cada uma delas é um patrimônio que é nosso, que é seu.
Diz o Poeta: “Cada pedra que i* jaz encerra a história”,
história valente, corajosa, “dum bravo que morreu”.**

Nessas pedras há sangue, há dor, há ideal e há liberdade,
e essa luta, só o Morro do Alecrim deve ser o lugar dela.
Assim, por que soterrar mais ainda a História, quando, de verdade,
há outros lugares para a santa escultura e o que vier com ela?

O caxiense Teixeira Mendes, a partir do Rio de Janeiro,
iniciou uma luta, fez a lei e finalmente conseguiu
separar Igreja de estado  —  pois a Fé, valor verdadeiro,
não deve ser obrigação constitucional no Brasil.

Mas o que um caxiense faz para todo o País outros desfazem em casa.
De modo exposto ou escondido, verbo e verba em variados expedientes,
interesses pessoais são mantidos, decisões e descaso ganham asa
…e História e Patrimônio caxienses  — sim, ruindo —  cada vez mais doentes.

Depois de portugueses e balaios,
que “mato” e “morro” não tornem a verbos
nesta terceira “guerra” do Alecrim;
que sejam o que são: só Natureza
e História, ambas com seu espaço e beleza,
cumprindo em Caxias seu elevado fim.

Sine ira et studio.

 

Edmilson Sanches
Caxiense.
www.edmilsonsanches.com
edmilsonsanches@uol.com.br

(*) O mesmo que .
(**) “Cada pedra que i jaz encerra a história” e “dum bravo que morreu” são respectivamente o terceiro e quarto versos da segunda estrofe da primeira parte do poema “Morro do Alecrim”, de Gonçalves Dias (in Poesia Completa e Prosa Escolhida, p. 527, Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959)

 

Poema enviado pelo poeta/pesquisador/professor/jornalista Edmilson Sanches.

Membro da Academia Caxiense de Letras (ACL) e Instituto Histórico e Geográfico de Caxias (IHGC).

Logradouro também é patrimônio histórico

O trato com o bem histórico caxiense vem sendo tratado de forma desleixada e sem interesse há muito tempo. Os bens materiais que compõe o acervo arquitetônico e que vem sofrendo agressões no dia a dia é o mais perceptível. Talvez por serem objetos materiais, palpáveis ao cotidiano. Os antigos casarões e seus elementos sendo apagados de nossas ruas de forma grosseira em favor de uma ‘nova paisagem’, na maioria das vezes de estilos e formas bem duvidosas.

Mas um dos nossos bens culturais que também estão sendo apagados nessa leva são os antropônimos e topônimos de nossos logradouros públicos.

Um logradouro público é muito mais do que uma rua ou praça. Tratando da parte central da cidade, a rua é traço inicial de muitas histórias e tradições no nosso meio político, social e cultural. Quer seja pela instalação de uma casa comercial aumentando sua valorização mobiliaria, uma residência de família expandido sua ramificação e influencia na localidade ou um teatro, trazendo artistas, contos e grupos para suas esquinas.

A esses lugares deram suas identidades próprias. Nomes que fazem parte de um universo único, originados daquele lugar particular. E são essas ações representativas que se criam o aspecto cultural e imaterial de uma localidade.

Ruas, travessas, becos e praças que homenageiam figuras do meio caxiense e datas simbólicas de nossa história estão sendo trocados por nomes de pessoas falecidas recentemente, onde na maioria residiam na rua ou proximidades.

Não que essas pessoas não sejam merecidas de honrosa homenagem. Sou até favorável a mudança do nome de um logradouro tradicional. Desde que o futuro homenageado tenha sua biografia tão ou mais destaque e importância que o atual a ser trocado. Que a sua história se sobressaia a uma data comemorativa ou a um nome popular.

Existem mais de mil logradouros públicos em Caxias e dezenas de nomes que se repetem pelos diversos bairros. Essas ruas e travessas é que devem receber essas novas homenagens ao invés de alterar becos e ruas tradicionais caxienses.

 

A origem dos nomes de nossas ruas

Ao se estabelecer o traçado viário e a delimitação dos quarteirões na então Caxias das Aldeias Altas do século XIX, deu-se nomes ligados aos templos religiosos, ao comercio, seus aspectos sociais e também ao urbanismo português. Rua Direita é um termo bastante usado nas vilas e cidades portuguesas que definem uma via estrutural. Em Caxias por volta de 1845 a Rua Direita era o nome da rua em que residiu o poeta Gonçalves Dias, e que também já se chamou Rua Formosa, Benedito Leite, do Cisco e hoje Fause Elouf Simão.

Nomes de logradouros que se repetiam nessas cidades de origem portuguesa como: Rua Augusta, Rua Norte, Rua Sul, Rua das Flores, Rua Grande, da Palma e largos como Matriz, da Cadeia, da Independência também existiam em Caxias.

A via que se mantinha o Porto para navegação, ganhou esse nome – Rua do Porto Grande. Locais que aglomeravam comerciantes não eram diferentes. A Rua dos Barbeiros mantinham esses profissionais com serviço de barba, cabelo e bigode. Aos poucos essas nomenclaturas foram mudando.

Grande parte dos logradouros públicos de Caxias na sua área central são nomes de personalidades homenageadas ainda em vida. Até o fim do século XX essa medida era bastante comum. Alguns merecidos como o poeta Coelho Neto que foi homenageado pela Câmara Municipal no ano de 1899 com o seu nome dado a rua em que nascera – Rua da Palma – e que permanece até os dias de hoje.

Mas a maioria eram de chefes políticos que ditavam a política na cidade e no Estado. Benedito Leite, Urbano Santos e Godofredo Viana receberam nomes no período do início republicano. A Revolução de 30 também nomeou ruas com seus chefes, como Getúlio Vargas e Siqueira Campos. O período da Ditadura Militar (1964-1985) não foi diferente: Sarney, João Castelo, Geisel e outros iam batizando as novas áreas periféricas urbanizadas na cidade durante esse período.

Mesmo com a proibição de logradouros públicos com nome de pessoas vivas pela Lei Complementar Nº 01 de 09/11/1967 e Lei Federal Nº 6.454 de 24/10/1977, as ruas de Caxias continuaram sendo batizadas com o de pessoas vivas até início do século XXI. Nos últimos anos, de forma bem lenta, esse costume vem sendo abolido. Mas não por completo. As homenagens nas ruas a políticos agora vem por meio de seus familiares.

Nomes históricos alterados

 O chegar aqui o Decreto de 1990 que estabeleceu o perímetro de interesse histórico, nele também deveria permanecer além do acervo o nome de seus logradouros. Mas não foi o que aconteceu. Várias ruas do centro histórico que tinham nomes ou datas alusivos à nossa cultura tiveram o seu nome alterado.

A rua Benedito Leite foi uma das primeiras a gerar estranheza por parte da população. Nome quase centenário e de traçado mais antigo ainda, a rua é mais conhecida por ser o local em que residiu o jovem Gonçalves Dias. Embora o seu nome tenha sido alterado a mais de dez anos para o atual, poucas pessoas a conhecem por seu nome atual.

rua1

Placas atuais identificando a rua Benedito Leite, que hoje se chama Rua Fause Simão.

 

A Rua 01º de Agosto, data histórica e festiva para a cidade, símbolo de nossa luta pela independência não existe mais. Foi nomeada para rua Alderico Silva, importante comerciante na metade do século XX.

 

rua2

Placas da década de 1980 a 2016: Nenhuma foi atualizada com o nome rua Alderico Silva.

 

A tradicional Praça Cândido Mendes também passou recentemente pelo perigo de ter o seu nome alterado. Cândido Mendes de Almeida, fundador do primeiro jornal em Caxias, Deputado e Senador pelo Império além de jornalista e advogado. Dá nome a uma das maiores universidades brasileira situada no Rio de Janeiro. Embora nascido em Brejo, aqui residiu (em um imóvel em frente a Praça que leva seu nome). Esse grande maranhense por pouco não fora também deixado de lado. A mudança seria para Praça Padre Mendes, em homenagem ao padre falecido em 2015 e que por muitos anos foi vigário da Igreja da Matriz. Cessado o impacto emocional da perda do padre, a tentativa de mudança foi suspensa, pelo menos por enquanto.

A última tentativa de alterar um nome histórico foi no bairro Cangalheiro. A Rua do Fio foi um dos primeiros caminhos abertos naquela localidade e que fora modelada ao longo do tempo como rua. Recebeu esse nome pois era por ali que passava o fio do telegrafo no século XX. Em 2016 um vereador apresentou projeto para alterar seu nome para ‘Rua Dirceu’, em homenagem ao comerciante Dirceu Mário Baima Pereira que mantinha comercio na região e que se popularizou em um pequeno largo que foi chamado de ‘Pau do Dirceu’. A população local não gostou da ideia e entrou com um abaixo assinado contra a mudança do nome da rua. A Câmara acabou acatando o pedido da população evitando a mudança de seu nome. Mas isso não evitou que placas com o nome Rua Dirceu fossem confeccionadas e fixadas, permanecendo até hoje.

Nomes populares como Rua do Fio são expressão da popularidade local. Existe uma carga muito forte de valores culturais exclusivos de certas regiões. O bairro Trizidela não fora batizado ao acaso. Historiadores são unânimes em afirmar que esse termo nasceu graças a população indígena naquela localidade. Este bairro de Caxias acabou servindo como denominação de áreas urbanas situadas na outra margem de rios que cortam uma cidade, inclusive batizando cidades como Trizidela do Vale.

O nome Rua do Fio por exemplo, serviu como base para diversas ruas na cidade nos bairros periféricos em que passam os fios de alta tensão da rede elétrica. Atualmente entre ruas e travessas existem 17 logradouros públicos com o nome ‘do Fio’ em Caxias.

 

rua3

Placa na Rua do Fio com o nome não aprovado ‘Rua Dirceu’. Ao lado placa da histórica Rua da Tangerina – que teve origem de uma história de amor ocorrida naquele local – ainda fixada, hoje rua Lacy Assunção.

 

É preciso um verdadeiro projeto de preservação da nossa história. A mudança do nome de um logradouro público não pode ficar apenas em votação pela Câmara. Deve passar pelo crivo de um Conselho ligado ao patrimônio histórico, da história, da cidade. Elaborado e fiscalizado por pessoas capacitadas nessas áreas.

É necessário que os nomes das ruas que compõe o centro histórico de Caxias tenham seus nomes de volta. Essa atitude faz parte de nossa preservação. A onomástica caxiense merece sim ser recuperada e estudada.

Deve-se ter de volta os nomes do Beco da Estrela, da Mangueira, da Pólvora, do Galo, do Noronha, do Onze, da Usina. Da rua Benedito Leite (ou Rua do Cisco), a rua 1º de Agosto, Conselheiro Sinval (ou Porto Grande), da Tangerina e todas as vias significativas da malha urbana do centro histórico.

 

Texto e imagens: Eziquio Barros Neto

 

Uma descoberta arquitetônica

Area 1

É surpreendente que em meio a um acelerado processo de descaracterização e destruição do acervo arquitetônico da cidade ainda se possa ter uma descoberta como essa.

Durante a reforma da igreja São Benedito, quando se preparava para pintar parte de um muro nos limites de seu terreno, foi descoberto uma preciosidade da arquitetura caxiense. O que se achava ser apenas um muro, descobriu-se escondidas por camadas de cimentos parte de uma antiga fachada do século XIX.

Diferente das fachadas do período encontradas em Caxias como Meia Morada, Morada Inteira, Morada e Meia, essa tem uma característica mais rustica. Janelões com distancias irregulares e sem padrão. Forma que se assemelha as antigas casas de comercio, depósitos ou até mesmo de um seminário. Provavelmente sua construção seja da metade do século XIX o que a torna uma das mais antigas fachadas na cidade, junto com as igrejas e o casarão colonial na praça Gonçalves Dias.

É nessas horas que se faz necessária a presença do Departamento de Patrimônio Histórico Municipal.

Vamos deixar esse tesouro se perder novamente?